Revista Debate Sindical, sem data
Ele transita pelo mundo dos números de forma impressionante, citando de memória indicadores econômicos, valores da dívida, déficits, Texas de juros. “Eu trabalho com isso há tanto tempo... Acostumei”, explica. O jornalista econômico Aloysio Biondi acaba de trocar uma coluna semanal na Folha de S. Paulo por um espaço, todos os dias, no jornal Diário Popular. Super assediado desde que publicou o livro O Brasil privatizado, Biondi recebeu a Debate Sindical - em meio a duas outras entrevistas - sempre falando muito e tornando acessíveis os sempre complicados conceitos econômicos. Como um jornalista deve ser, mesmo quando é ele o entrevistado.
Debate sindical - O senhor tem defendido, em entrevistas e artigos, que os Estados Unidos estão em crise econômica e são a “bola da vez”. Gostaria que o senhor explicasse porquê.
Aloysio Biondi - É muito simples: Os Estados Unidos têm um buraco enorme na balança comercial. Eles sempre importavam mais do que exportavam e, com a crise asiática, esse rombo se agravou. A balança comercial deles sempre teve um déficit de 10 a 12 bilhões de dólares. No ano passado esse déficit chegou a 15 bilhões de dólares em um mês. O normal, nessas situações, é que a moeda caia. É por isso que o dólar está caindo diante do iene (moeda japonesa) sem parar.
Os Estados Unidos teriam que cortar suas importações e aumentar as exportações, o que acontece via desvalorização da moeda. Bom isso, nunca aconteceu porque o dólar sempre foi aceito mundialmente como moeda forte. Porém os Estados Unidos são os maiores caloteiros do mundo. Recebem mercadorias de todo o planeta e pagam com dólar, que nada mais é do que um “papagaio”, que não tem correspondência com a exportação deles. Os Estados Unidos têm uma dívida externa calculada entre 6 a 8 trilhões de dólares.
DS - Só para comparar, a dívida do Brasil é de quanto?
AB - É de 230 bilhões de dólares, o que corresponde a ¼ do nosso PIB, mais ou menos. A dívida deles corresponde a 100% do PIB. No caso do Brasil, o país começa a dever muito e os investidores não querem mais comprar nossos papéis porque acham que vai ter calote. No caso dos Estados Unidos, seriam a mesma coisa se o dólar valesse realmente o que se pensa que vale.
DS - Se tivesse lastro...
AB - Exatamente. Já em abril e maio deste ano, a diferença entre exportações e importações americanas passou dos 18 bilhões de dólares por mês. Em junho, foi para 21 bilhões de dólares. Mais 3 bilhões em um mês! No final do ano, eles vão acumular um buraco de 270 bilhões de dólares. E como eles vão pagar? Com a emissão de dólares.
Tem que avaliar esses detalhes, principalmente porque surgiu o euro (moeda comum européia). O dólar está supervalorizado, teria que cair 28% em relação ao euro e 23% em relação ao iene. Para as exportações subirem, eles precisam desvalorizar o dólar.
DS - Mas o governo americano não pretende fazer isso...
AB - Ele não desvalorizaria, é uma queda no mercado. Os Estados Unidos se beneficiaram com a abertura de mercado nos chamados países emergentes. Tanto que eles tinham um saldo negativo de um milhão e meio de dólares com o Brasil e passaram a ter um saldo positivo de cinco milhões de dólares.
Eles forçaram esses governos a abrir a economia para compensar o déficit que sempre tiveram com a Europa, a Ásia e o Japão. É apenas um ciclo: num primeiro momento, os EUA conseguiram vender mais. Só que vem o troco: a Coréia, por exemplo, seis meses depois, já estava com saldo positivo de vinte e tanto milhões de dólares na balança comercial.
O raciocínio é: os Estados Unidos tiveram uma fase de grande prosperidade porque forçaram a abertura dos mercados em outros países, e não da Europa. Só que esses países passaram pelo refluxo da maré e agora vão segurar as importações americanas e exportar os seus produtos.
Eles importam 10 milhões de barris de petróleo por dia. Nos últimos dois anos, o preço tinha caído de 20 para 10 dólares o barril. Mas agora voltou para 20 dólares, porque os países fornecedores cortaram a produção para forçar a recuperação dos preços, coisa que a imprensa brasileira não noticiou. E sabe por quê? Porque o governo FHC queria entregar o petróleo naqueles leilões e dizia que o preço estava baixo. Porém, o petróleo começou a se recuperar e, em abril, já estava já estava em 16 dólares o barril. Esse é o fato econômico mais importante do ano, porque reequilibrou países exportadores de petróleo como a Venezuela, o Equador e a Rússia, que, aliás, é um bom exemplo. A Rússia, em abril, já estava com um saldo positivo de 24 bilhões de dólares na balança comercial. É côo a Venezuela, que de repente fica com um déficit porque a arrecadação é muito ligada ao petróleo.
Mas esses países são periféricos. Do ponto de vista da Europa e Estados Unidos, da hegemonia do dólar, o fato é que o déficit da balança comercial americana já aumentou horrores antes do petróleo subir.
DS - O euro já está consolidado?
AB - A maioria dos países europeus importantes tem governos de esquerda e o euro só foi possível por isso. Em fevereiro, a Gazeta Mercatil publicou indicadores econômicos mostrando que há mais emissões de títulos em euro do que em dólar. Todo o mundo tem que confiar na moeda européia porque esses países têm saldo positivo. Eles não estão comprando mercadoria e pagando com “papagaio”, eles têm dinheiro para pagar. Os Estados Unidos estão emitindo “papagaio” porque não têm nada para lastrear a moeda. É um fenômeno do século, a hegemonia do dólar vai ser abalada.
DS - você disse que os EUA entrarão em crise, mas não o restante do mundo. Como isso é possível?
AB - Vai ter uma turbulência de três e quatro meses no mercado mundial, claro. Mas não vai ser um crash como o que ocorreu em 1929. O euro é o começo do fim da hegemonia dos Estados Unidos. É muito interessante: a Rússia está com saldo de 24 bilhões em sua balança comercial, a Alemanha tem saldo de 70 milhões, o da França é de 29 milhões, o saldo da Itália é de 24 milhões, o Japão tem um saldo de 120 bilhões. Esses países sofriam com a farsa do valor artificial no dólar, porque a economia deles não está com problema nenhum.
DS - E que conseqüências uma crise dos EUA teria para o Brasil?
AB - Num primeiro momento, serviria de desculpa para o governo FHC, que já usou crises da Ásia e da Rússia como desculpa. A verdade é que o Brasil continua quebrado porque o governo pagou 27 bilhões! Este ano a previsão é de 120 bilhões de dólares de juros.
DS - Acumulados?
AB - Não, a cada ano! E olha que não é a prestação mais os juros, são só juros. São 100 bilhões por ano! Isso é praticamente o orçamento do governo, que é de 160 bilhões. Estamos vivendo uma farsa e o FMI sabe perfeitamente que não tem.
O FMI sabe que, mais cedo ou mais tarde, o governo brasileiro vai quebrar. Mas uma crise que abale o governo a ponto de ter uma grande debate nacional não interessa a eles. Por sorte, estamos caminhando para ela. Eu digo sorte porque, enquanto não houver esse debate, eles vão continuar privatizando o petróleo, vendendo o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, as energéticas. Eles estão esticando a corda e, quando estiver tudo privatizado, vão deixar quebrar.
DS - Por falar em privatizações, o senhor publicou recentemente um livro que mostra que elas estão sendo um péssimo negócio para o Brasil, inclusive financeiramente. O que levou o senhor a escreve-lo?
AB - Eu estava chefiando a DCI (Diário do Comércio e Indústria, jornal paulista) na época e acompanhei todo o processo de privatização. Era um assunto que me incomodava demais, pela falta de informações, pela parcialidade da imprensa, por causa da passividade da opinião pública...
DS - O livro teve uma receptividade muito grande, não é fácil vender 120 mil exemplares no Brasil, ainda mais com um assunto meio espinhoso...
AB - As pessoas ficam muito instigadas pelos dados mostrados no livro. Eu sou um profissional de comunicação. Meu interesse sempre foi fazer uma coisa de massa, que falasse ao “homem comum”. É claro que, para chegar a essa tiragem, fomos ajudados por uma série de coisas. As co-edições com as entidades sindicais, por exemplo. Eu não ousaria calcular 100 mil exemplares vendidos, mas eu sempre acreditei que era um tema que despertaria grande interesse.
DS - O livro foi baseado principalmente em dados publicados pela imprensa, não é isso?
AB - E de relatórios do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) também. Procurei não usar dados da oposição, mas os oficiais, declarações das empresas, dos seus diretores. Eu falo pouco do neoliberalismo no livro, mas é deliberado. Porque se eu começasse a colocar que a privatização era uma coisa vinda de fora, daria margem para o governo dizer que não tem culpa, que “foi uma coisa mundial”, inevitável.
DS - Mas qual é a sua opinião sobre a privatização de setores como a energia elétrica, por exemplo?
AB - Acredito que alguns setores são realmente estratégicos... A França privatizou a Telecom no ano passado, mas o governo continuou com 20% das ações e com o controle da empresa. Só a Inglaterra vendeu o que tinha. E a tendência mundial não é essa. Veja o minério, por exemplo. A Vale do Rio Doce sempre teme uma grande briga com a Austrália e coma Índia para exportação. E se você não tem o controle nacional é a matriz da multinacional que determina o que exportar. Até por definição, ela não vai agir de acordo com os interesses de um país específico. Ela age de acordo seus interesses globais.
Se você precisa do dólar para pagar os compromissos externos, o Estado precisa ter o controle dessas áreas, que tem tendência ao cartel. Eles conseguiram nos convencer de uma grande mentira, que é a de que os recursos naturais não tinham mais importância, que agora o negócio é tecnologia. Esse foi o grande mito do início do escancaramento do mercado. Precisava de tecnologia, recuso natural não valia mais nada. Todo mundo acha que petróleo é combustível para carro. Petróleo é a fonte de energia dos Estados Unidos! Eles não têm rios para produzir energia, então eles usam basicamente o petróleo. Sem o petróleo, a economia deles pára no dia seguinte.
Esse debate de setores estratégicos não é ufanismo. São fatores econômicos, concretos. Nossa energia é gerada a partir da água, de graça. Temos petróleo, os campos mais fantásticos do mundo estão sendo descobertos aqui, temos todos os tipos de minérios, Carajás, solo altamente agricultável, clima diferenciado, energia solar, mercado interno. Esse governo é uma coisa lamentável. Ele poderia ter rompido com o FMI dez vezes e lançado um projeto nacional. O país é viável.