Jornal Diário Popular , domingo 9 de julho de 2000
Aumento na oferta de empregos, aumento na produção industrial, recuperação da indústria automobilística. Essa série de notícias otimistas tem sido despejada sobre os brasileiros, ao longo dos últimos dias. É mesmo o fim da recessão? Ou há dados escondidos, ou mal divulgados, mostrando que os problemas continuam? Encontre você mesmo a resposta:
Produção industrial — Os resultados de maio (só agora divulgados) apurados pelo IBGE mostram na verdade uma queda de quase 2% na comparação com abril. Isto é, tendência negativa. O aumento de 6% tão festejado se refere na verdade à comparação entre maio deste ano e maio do ano passado — quando, como se sabe, a produção havia despencado.
Automóveis — Em dezembro do ano passado, a produção chegou ao fundo do poço, com apenas 80 mil veículos produzidos, ou menos da metade dos 180 mil carros, ônibus e caminhões lançados no mercado no segundo semestre de 1998. Em maio, foi atingido o nível de 150 mil veículos, que ainda precisaria avançar mais 20% para alcançar os resultados de 1998. Mas, em julho, o avanço foi de apenas 1%. E, pior ainda: as vendas, das montadoras para as revendedoras caíram 4,3% — porque há estoques ‘‘encalhados’’. No total, há 151 mil veículos estocados, equivalentes a 38 dias de vendas.
Férias coletivas — Exatamente por causa desses estoques, a Ford do Brasil já anunciou férias coletivas de seus trabalhadores em agosto. A produção do setor voltará a recuar.
Sem consumo — O aumento de 6% na produção de toda a indústria, segundo o IBGE, foi puxado exatamente pelo setor automobilístico, ao voltar para o nível de 150 mil veículos, agora ameaçado. Mas a produção de artigos semiduráveis (roupas, calçados) e não-duráveis (remédios, combustíveis) caiu 2,3%. Para os remédios, houve um ‘‘tombo’’ de 7% e, para os combustíveis, de 9% — reflexo da perda de poder aquisitivo da população, incapaz de absorver os aumentos de preços ocorridos nesses segmentos.
Empregos — A oferta de empregos deve acusar reação nestes próximos meses, graças a três fatores. Um deles é tradicional: julho e agosto são a época de maiores encomendas à indústria, que deve entregar as mercadorias ao comércio em outubro, com vistas às vendas de Natal. A contratação de milhares de pessoas como pesquisadores do IBGE, para realização do censo, é um dado novo. Finalmente, as eleições de outubro representam não apenas o recrutamento de centenas de milhares de pessoas como cabos eleitorais etc. para a campanha, como também significam fortes encomendas à indústria de material de propaganda, de bonés a panfletos.
Renda — Mesmo temporários, todos esses empregos aumentam a renda da população e poderiam representar a injeção de mais dinheiro na economia, impulsionando o consumo. Mas há um dado negativo em cena, que pode anular esse impulso: os fortes aumentos de tarifas e combustíveis estão afetando os orçamentos familiares, deixando menos dinheiro para o consumo.
Não há motivos para festejar.