Revista Doçura , dezembro de 1979
É possível que os preços não subam tanto e que as safras sejam muito boas. Tudo depende da inflação.
Este ano todo mundo se preparou para viver um grande Natal. A partir de setembro era possível perceber que o consumidor aumentara suas compras. Chegou a haver falta de mercadorias porque as fábricas não conseguiram produzir no mesmo ritmo da procura.
Em outubro, os comerciantes previam vendas sem precedentes. Um convidado indesejável, no entanto, tumultuou a festa: a carestia, que deu novos e terrí¬veis saltos nos últimos meses do ano.
A preocupação com 1980 — "onde vamos parar com esses preços?" — esteve presente, mais do que nunca, em to¬das as cabeças, crescendo o pessimismo quanto à possibilidade de reduzir o ritmo da inflação. Ainda mais porque no começo do ano sempre há uma série de aumentos de preços.
A carestia vai mesmo continuar? Os aumentos de preços, no Brasil, podem começar a ser menores, em 1980, com a inflação caindo a taxas muito mais baixas. Mas tudo depende da decisão do governo. Por quê? Na verdade, a grande carestia do segundo semestre deste ano poderia ter sido evitada, mas os ministros da área econômica acharam melhor aumentar o combate à inflação somente a partir de 1980.
Assim houve aumentos de 40 a 50% nos preços da gasolina, do óleo combustível (usado nas caldeiras da indústria), do óleo diesel. Essa decisão do governo tinha um objetivo: forçar as empresas e a população em geral a economizarem petróleo. Só isso? Não. Uma parte dos preços daqueles produtos é formada de "taxas", "impostos", e, com o aumento, sua arrecadação cresce, acrescentando verbas para execução de planos de transportes, pesquisa de petróleo, etc.
A estratégia dos ministros da área econômica em 1979 foi, portanto, permitir certos aumentos de preços — o caso do petróleo não foi o único, e é citado aqui apenas como exemplo — para conseguir dinheiro e resolver certos problemas da economia. Em 1980, esse tipo de aumento já não precisará ser feito, trazendo menores pressões sobre a inflação.
Mas a maior esperança de uma carestia menor está na área que mais interes¬sa ao consumidor: a alimentação. O ano de 1979 foi padrasto. Basta lembrar que, já em agosto, enquanto o custo de vida tinha subido 38%, o custo da alimentação havia disparado, e chegava a nada menos do que 69%, isto é, a comida subira praticamente o dobro do que todos os demais bens usados pela população.
Para 1980, a menos que haja uma seca catastrófica no país, pode-se esperar não apenas uma estabilidade, mas até mesmo queda de preços para um grande número de alimentos. Os produtores de feijão, arroz, soja contam com dinheiro para plantar, além de uma série de vantagens para obter grandes colheitas. O feijão principalmente, que passou a barreira dos Cr$ 30,00 o quilo no começo de outubro, pode vir a ser vendido bem mais barato.
Também se espera grande safra de milho em 1980. Seu preço tem muita importância para o barateamento da carne de frango e de porco, já que ele é usado na alimentação animal. O café caminha para uma superprodução mundial, com a África e América Central duplicando sua produção. Mesmo que haja geadas no Brasil, vai ser difícil pensar em grande aumento de preços.
A produção de frango e porco deveria ter sido estimulada, em 1979, para que houvesse grande oferta, permitindo que eles fossem usados em substituição à carne bovina. Demorou-se muito para descobrir isso, e, com o aumento do consumo, seus preços dispararam também, deixando o consumidor sem opções. No último trimestre do ano, finalmente, foram liberados grandes empréstimos, o que deverá provocar aumento de sua produção.
Também se espera oferta maior de carne de vaca em 1980. A safra, época de boi gordo e abates, atinge seu auge no começo do ano. Mas já em outubro havia boi gordo no Brasil Central (Goiás), e o governo estava comprando para abater e transformar em carne con-gelada. Para queijo, manteiga, laticínios havia perspectivas semelhantes.
O único setor em que, já em 1979, houve uma tentativa mais firme de aumentar rapidamente a produção e evitar a especulação na comercialização foi o de verduras e legumes. O chamado "Projeto Legume", da Cobal, poderá ajudar a evitar grandes altas de preços de janeiro a março, já que o verão é época em que o calor afeta violentamente a produção. O governo assinou contratos com agricultores, para estimulá-los a plantar, mesmo com o calor, sem medo de sofrer prejuízos: sua plantações terão seguro, isto é, se forem destruídas por secas, chuvas ou granizo, eles receberão do mesmo jeito. Além disso, o governo se comprometeu — por contrato — a comprar toda a produção desses agricultores. Quer dizer, se houver "sobra de produção" o governo pagará um preço já combinado a esses lavradores.
O cenário montado para 1980 é esse. Só falta saber se a violenta inflação do segundo semestre de 1979 não vai ter efeitos de longo prazo, levando produtos, indústrias, comércio à necessidade real de aumentarem seus preços simplesmente para poder cobrir os custos inchados pela inflação.