Jornal Diário Popular , terça-feira 30 de maio de 2000
Qual melhor retrato do Brasil de hoje, com os governantes pouco se lixando para a sociedade, trabalhadores ou classe média, agricultores ou pequenos empresários? Qual melhor retrato do Brasil de hoje, palco de episódios que nenhuma outra sociedade aceitaria? Há escolhas para todos os gostos. Mas o mais dramático, e mais simbólico, são as cenas periodicamente exibidas pela TV, ou estampadas nas páginas de jornais, de tratores e escavadeiras destruindo brutalmente as casas de gente do povo, milhares de famílias impotentes diante dos monstros de aço que avançam sobre suas moradias.
Vai tudo de roldão. Tudo é destroçado, moído. Os monstros reduzem a escombros inaproveitáveis não apenas materiais de construção, mas anos de vida e sacrifício, amor e privação, dor e alegria de pais, mães, filhos. Transformam-se em pó as telhas, compradas porque o pai trabalhou dois turnos, l6 a l8 horas por dia, para juntar dinheiro e pagá-las. Distante da família, ausente da vida dos filhos, para lhes garantir uma casa.
Desabam, feridas de morte, as lajes sofridamente pagas pela mãe, às custas de levantar-se às 4 da manhã, andar a pé para economizar a passagem do ônibus, trabalhar o dia todo com o pensamento teimando em preocupar-se com os filhos trancados no barraco — a mais velha, sete anos, encarregada de esquentar a comida do almoço que ela preparou antes de sair para o emprego... o risco de incêndio... crianças carbonizadas... Tudo destroçado, moído. Os tijolos, os fios, os canos, as esquadrias. A comida que a família não comeu, o remédio que a família não tomou, a roupa de frio que ela não usou, o caderno que as crianças não ganharam... Todas as economias, todas as privações, para construir uma casa.
Tudo destroçado, moído. Vidas. Como se não fossem nada. O espantoso é que a tragédia se repete, sem provocar reação - não das famílias vitimadas pelos monstros de aço, mas da própria sociedade. A apatia tende a ser justificada com o argumento de que as demolições se devem a decisões da Justiça, porque as moradias foram construídas em lotes ilegais (sem que as famílias soubessem disso) ou áreas públicas invadidas. Claro que as decisões da Justiça têm de ser cumpridas. Mas o que espanta é que nem o governo do Estado nem a Prefeitura negociem com o Judiciário, ganhem tempo ao menos para uma transferência organizada dessas famílias e, quando a demolição for inevitável, que ela seja feita no mínimo salvando-se os materiais aproveitáveis. Nada. Não se faz nada. Da noite para o dia, as famílias perdem a casa, os móveis, tudo. Ficam ao relento, em barracas de plástico, semanas a fio. Como ir para o trabalho, como deixar as crianças, como evitar doenças, como enfrentar o frio? O drama dessas famílias é apenas um exemplo dramático de como a sociedade brasileira está anestesiada. Perdeu o senso de solidariedade. E desaprendeu que democracia dá trabalho. É preciso protestar, sempre, azucrinar os poderosos. Telefonar, abordar em locais públicos, protestar, protestar, protestar. Vereadores, deputados, prefeitos, governadores precisam ser cobrados para que o povo e seus direitos voltem a ser levados em conta.