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  Yes, nós somos miseráveis bananas

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 10 de setembro de 1998


Quinta-feira, bilhões de olhos e ouvidos ligados ao noticiário sobre a “crise mundial”. Mais práticos, indiferentes à montanha-russa de cotações nas Bolsas, governantes de um bloco de países aumentam em 25 pontos percentuais, de 8% para 33%, os impostos sobre a importação de alimentos e produtos agrícolas básicos, como trigo, milho, sorgo e outros grãos.

Você está pensando, caro leitor, que se trata dos países chamados de “tigres asiáticos”, às voltas com o terremoto em suas economias? Ou os governantes neocucarachos da América Latina, que destruíram as empresas, os empregos, o patrimônio acumulado nas estatais e conduziram seus países ao caos?

Ora, caro leitor, mais uma vez você está redondamente enganado, vítima do raciocínio embotado que tomou conta de toda a sociedade brasileira por força da “lavagem cerebral” dos últimos anos e toda a mentiralha da “modernização”. Os governantes que levantaram barreiras às importações são, simplesmente, dos países europeus, os integrantes da União Européia.

Por que fizeram isso? Porque estão sem dólares? “Rombo” na balança comercial? Não têm dinheiro para pagar sua dívida externa? Estão com o Tesouro arrebentado? Precisam elevar juros para atrair capital especulativo e arrebentar ainda mais as finanças da União, Estados e municípios ou equivalentes?

Nada disso, caro leitor. Esses países “nadam” em prosperidade (ah, sim: a França, por exemplo, teve um crescimento de 6% em sua produção industrial no primeiro semestre, graças ao programa “antineoliberal” de seu governo). Por que, então, a decisão?

É simples: neste ano, houve superprodução mundial de cereais, alimentos. Os preços despencaram, para os níveis mais baixos em 10, 11 anos. Há, obviamente, o risco de empresas importadoras quererem comprar esses produtos no exterior, a preços mais baixos. Ao aumentar os impostos em 25 pontos percentuais, os governantes europeus impediram as importações, sem proibi-las.

Mas, repita-se, por que a decisão? Óbvio: para garantir mercado à produção de seus próprios países, para garantir empregos no campo, para garantir renda à população rural, que por sua vez compra os produtos e serviços de empresas locais. Para, em resumo, manter a economia nacional, o nível de emprego, a arrecadação de impostos, o oferecimento de serviços de saúde, educação, transportes e energia à população.

Não se surpreenda, caro leitor: os governos dos países ricos defendem os interesses de seu povo e de seu país. De uma penada, elevam impostos para defender a produção local. Aqui? Aqui, no reino dos cucarachos, com tudo explodindo, pavões enfeitados chamados de formadores de opinião engabelam a sociedade com longas “análises” sobre a impossibilidade de defender a empresa nacional, o agricultor nacional, o trabalhador brasileiro. Dizem que isso seria um “retrocesso”. Pavões enfeitados. E nós, que engolimos sua discurseira modernizante, nos colocamos na posição de “bananas”.

“Delenda” Brasil

Nos últimos dias, surgiram notícias sobre um “racha” na equipe FHC: um dos ministros estaria discordando da política de escancaramento do mercado e destruição da indústria brasileira. Não acredite nessa encenação, caro leitor. O governo FHC é cosso em sua fúria anti-Brasil.

Há poucas semanas – como esta coluna apontou na época –, na hora de privatizar as teles, as regras dos leilões iam prever que os “compradores” deveriam utilizar 35% de peças e componentes fabricados no Brasil. Depois, falou-se em 20%. Na “hora H”, os “compradores” ficaram com liberdade total para importar equipamentos, fulminar o que resta dessa indústria no país – e o ministro que aprovou essa barbaridade é o mesmo que, agora, poucas semanas depois, dizem ser “dissidente”.

O pretexto para a “liberdade de importar” foi a empulhação de sempre: a necessidade de “tecnologia” moderna, que só as multinacionais teriam. Você acreditou nisso, a sociedade tem acreditado nisso, certo?

Pois então veja o que está acontecendo, neste exato momento, na área de exploração de petróleo. A Petrobrás, como se sabe, aceitou multinacionais como “parceiras” para explorar campos petrolíferos no Brasil, sobretudo no fundo do mar. As indústrias brasileiras acreditaram que iam ter grandes encomendas, daqui para a frente. Ledo engano: as multinacionais querem comprar tudo nos seus países, criar empregos, renda, consumo, arrecadação de impostos em seus países.

Por causa da “tecnologia”? Ora, não se engane. Ao longo de 25 anos, a Petrobrás “inventou” tecnologia, equipamentos para procurar petróleo debaixo das águas do mar – e encomendou esses equipamentos às empresas brasileiras, isto é, transmitiu-lhes a tecnologia. A Petrobrás foi escolhida, por associações internacionais, como a líder, campeã de tecnologia na busca de petróleo submarino. Isto é, as empresas brasileiras são líderes mundiais em tecnologia submarina.

Mas as multinacionais já estão providenciando as importações. Querem importar. De seus países. O empresariado nacional? Está pedindo pelo amor de Deus, ao governo, para receber uma fatia miserável, de apenas 20%, das encomendas dos equipamentos.

Como no caso das telecomunicações, mendigar não vai resolver nada. Afinal, as multinacionais sabem qual é o país delas. E há governantes que sabem qual é o país deles. Criam empregos, renda, consumo nos seus países. Não “torram” dólares, empregos, o futuro com importações, mesmo quando falam em "pacotes" para defender a moeda do seu país. Eu disse “seu” país?



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