Revista Visão , quarta-feira 29 de janeiro de 1992
Vai faltar mão-de-obra no Brasil. O Brasil vai importar mão-de-obra, trabalhadores estrangeiros, em grande escala, nos próximos cinco ou dez anos. Quem quiser, pode anotar a previsão. Os resultados do Censo mostram claramente essa tendência. A queda na taxa de nascimentos – desde os anos 70, e acelerada nos anos 80 – significa isso, em termos de realidade: milhões de jovens que, segundo as projeções, estariam chegando ao mercado de trabalho ao longo dos anos 90 simplesmente não nasceram. Não existem. No fascinante mundo novo desvendado pelas estatísticas do Censo, que conseqüências a sociedade brasileira pode esperar? Antes de mais nada, pode-se prever que os salários finalmente vão subir rapidamente no País. Até agora, o grande argumento para conter os salários dos brasileiros em níveis vergonhosos foi sempre o “excesso” de mão-de-obra (e as esquerdas ajudaram bastante a manter essa distorção, com sua vesgueira em relação à realidade populacional). Esse excesso não existe – e o bom observador já poderia ter detectado o fenômeno, há muito tempo. Na época do Cruzado, por exemplo, os salários explodiram, com o aquecimento da economia, mostrando clara escassez de mão-de-obra no Sul-Sudeste.
A falta relativa de mão-de-obra foi encoberta, nos últimos anos, pelas sucessivas crises da economia, e isso vai mudar. Claro que essa análise vale para o Sul/Sudeste e manchas do Centro-Oeste, isto é, o Brasil de economia desenvolvida. O nordeste oferece outro quadro. E é essa diferença, exatamente, que aponta para outra mudança que os dados do Censo demonstram ser urgentes: o País tem que adotar uma política econômica de ênfase ao Nordeste (como esta coluna defendeu ao longo do tempo). Agora, não é mais uma questão “humanitária”, mas econômica. Ao contrário do Centro-Sul desenvolvido, o Nordeste tem mão-de-obra sobrando, desempregada ou subempregada. Os salários vão subir no Centro/Sul, encarecendo a produção. Empresários e governo enxergarão, finalmente, as vantagens econômicas (sem nada de humanitário) de estimular investimentos no Nordeste, capaz de oferecer custos de produção mais baixos. E o Centro/Sul? Vai acelerar a sua entrada no Primeiro Mundo, acentuando tendências que já estão em cena, e que o “catastrofismo” nacional não deixa perceber que são típicas de países ricos, desenvolvidos.
A classe média das grandes capitais, São Paulo à frente, vai finalmente entender o que nunca entendeu: que os migrantes, os “nordestinos” não são (ao contrário) um “peso” imenso para a parcela da população da região que se considera tipicamente “brasileira” (e vê os “baianos” como forasteiros) – se bem que seus pais ou avós eram italianos, árabes, espanhóis, judeus, alemães, aportados ao Brasil há poucas décadas). Os “nordestinos”, ao contrário de serem um “peso”, representaram uma oferta de mão-de-obra capaz de manter os salários em níveis baixos, e permitiram aos empresários “brasileiros” construírem suas empresas, seus negócios. Entenda-se bem: esta análise não é uma crítica do ponto de vista moral. É uma análise estritamente econômica: a economia de São Paulo teve, como fator de crescimento, a oferta de mão-de-obra nordestina. Ponto. Já na década de 80 essa oferta foi caindo, com o recuo violento da migração. A escassez vai ficar clara, quando a economia brasileira retomar seu caminho. A classe média das grandes capitais, então, vai perceber o quanto seus interesses dependem, hoje, de serviços prestados pelos homens e mulheres “nordestinos”. Como tendência, além da alta dos salários, serão acelerados processos de adoção de hábitos de Primeiro Mundo, com a ampliação e abertura de mercados novos para os empreendedores: o uso de eletroeletrônicos, (de freezers a lavadoras de louças) de serviços, de maquinetas enfim que substituam a mão-de-obra. Ao nível das indústrias, a mesma onda, de mecanização e automação. E o aumento dos salários, do poder de compra da população como um todo, reforçará o consumo de serviços hoje restritos a poucos.
Todas essas perspectivas não são uma “reviravolta”. Elas não estão acontecendo da noite para o dia: já existiam e vão ficar mais fortes, agora. Simplesmente, a sociedade brasileira ignorou que, ao longo dos últimos 40 anos, viveu um processo que, nos outros países, demorou séculos para ser completado. Até o começo dos anos 60, o Brasil era um país agrícola, e, mais ainda, praticamente monocultor, concentrado no café. Quase 70% da população vivia no campo. Com o processo de industrialização detonado por JK na década anterior, mais a crise da agricultura (que provocou brutal êxodo rural) nos anos 60 e 70, o Brasil entrou em outra fase de sua História. Passou de agrícola a industrialização e sua população de rural a urbana. Essa transição foi marcada por inchaço “das cidades” e problemas sociais. Mas essa etapa do processo se completou. Aqueles problemas de êxodo, desemprego, ficaram para trás. Há muito tempo que o Brasil está melhor, mais fácil de administrar.