Revista Caros Amigos , agosto de 1999
"É absolutamente delirante acreditar que o país conseguirá honrar seus compromissos internacionais. Os banqueiros sabem disso e sabem que novas crises do real são inevitáveis."
Queda livre na venda de automóveis, com 80.000 a 100.000 unidades vendidas em julho, contra 180.000 mensais nos últimos meses de 1998. Crise total, apesar da inútil redução de impostos, e das promoções, com financiamento a juros de 1,05 por cento ao mes ou até sem juros para o comprador. Faturamento 7 por cento menor para o comércio da Grande São PauIo em junho, segundo dados da federação do setor, desmen¬tindo totalmente as informações otimistas, divulgadas anteriormente, de que as vendas do Dia dos Namorados haviam batido recordes, com um salto de 18 por cento sobre 1998. Liquidações de roupa de inverno, tradicionalmente realizadas em agosto, desencadeadas em pleno mês de julho, devido ao encalhe dos estoques. Liquidações, note-se, mesmo nos shopping centers dos bairros ricos das capitais, que vinham conseguindo manter a cabeça fora da água, em meio ao naufrágio geral. E, deixando de lado o desempenho do comércio, olhe-se para outro indicador: em São Paulo, em junho, o número de imóveis para alugar entregues a administradoras chegou a 27.000 – isto é, o dobro do número registrado há um ano, e pasme-se: praticamente vinte (v-i-n-t-e) vezes a média histórica de 1.500 imóveis vagos, para locação, na capital paulista.
Alguma surpresa nesse quadro dramático? Ora, só mesmo a delirante equipe econômica do governo FHC e seus acólitos (lideres empresariais capachildos e deformadores de opinião idem) poderiam continuar apostando na "reaçâo da economia" depois da crise do primeiro trimestre. Delírio puro, sim: como é que alguém dotado de alguma racionalidade pode prever aumento no consumo, se ele depende do poder aquisitivo da população, e todos os dados disponíveis mostram há muitos e muitos meses que ele está minguando? Veja-se bem: desemprego de 20 por cento nas principais regiões metropolitanas (e não apenas em São Paulo, como cinicamente o governo repete há cinco anos); conseqüente queda no salário médio, na massa salarial (total das folhas de pagamento) e na renda das famílias; congelamento, há cinco anos, dos vencimentos do funcionalismo; "confisco" de parte da renda da população, com os aumentos nos percentuais de contribuições à Previdência; e, para completar, o execrável "reajuste" de 6 reais para o salário mínimo... Repita-se: como é possível pessoas não-delirantes acreditarem que a soma de todos esses fatores negativos seria um resultado positivo?
Há mais, porém. Não foi apenas a queda na renda que achatou o poder aquisitivo. Houve também os reajustes de tarifas de transportes nos primeiros meses do ano, o aumento (de até 20 por cento) nas tarifas de energia elétrica, idem para os telefones - e os aumentos nos preços da gasolina e outros combustíveis, por causa da duplicação dos preços do petróleo no mercado internacional de 10 para 20 dólares o barril, e que exige novas revisões de preços. (Detalhe histórico: os meios de comunicação não noticiaram essa alta, que começou em fevereiro/março, quando os países da OPEP decidiram cortar a produção para forçar a alta dos preços. Motivo do silêncio, total: o governo FHC já havia marcado os leilões para entregar, às empresas multinacionais, as fabulosas áreas produtoras de petróleo, principalmente da plataforma submarina. Tudo “grátis", ao preço simbólico de 50.000 a 150.000 reais, absurdo que o governo FHC tentava justificar dizendo que o mercado de petróleo estava em baixa. Foi uma das maiores manobras de manipulação da opinião pública brasileira dos últimos anos, por desgraça, bem-sucedida.
OS OUTROS DELÍRIOS
Quando o real despencou, em janeiro, choveram outras pre¬visões igualmente delirantes: agora, esta tudo resolvido, as ex¬portações vão crescer, as importações vão cair, haverá sobra de dólares para pagar compromissos e os credores internacionais voltarão, portanto, a confiar no Brasil - e aquela lorota toda de credibilidade internacional. Essas previsões estavam ignorando um dado fundamental: com a desnacionalização violenta da economia nacional o país ficou nas mãos das multinacionais. E elas importam maciçamente até peças e componentes de suas matrizes, ou filiais de outros países escolhidas pelas matrizes. E, igualmente, elas só exportam quanto e para onde as matrizes querem. Por isso mesmo, as exportações brasileiras continuam a cair, e as importações não tiveram o recuo previsto (Veja-se o contraste: mesmo com a crise, a Coréia não permitiu a destruição e principalmente a desnacionalização desenfreada de suas empresas. Resultado: as exportações coreanas para os EUA deram "saltos", com avanço, por exemplo, de 30 por cento nas vendas de automóveis, este ano. Por quê? Porque são empresas da Coréia, não filiais de multinacionais, ligadas aos interesses dos EUA e outros países ricos. E o Brasil? Mesmo com a desvalorização, as exportações de carros recuaram 50 por cento este ano. É preciso dizer mais alguma coisa?).
O Brasil continuou, portanto, com o "rombo’ na balança comercial, isto é, sem os dólares de que precisa para fechar as contas externas. Mas, afinal, apesar disso, não houve uma reconquista da credibilidade internacional? Não. Exatamente porque os dados mostram que o Real está sujeito a novas tur¬bulências, os banqueiros internacionais estão exigindo juros cada vez mais exorbitantes para simplesmente renovar emprés¬timos a empresas ou mesmo ao governo brasileiro. Alguma dúvida? Pois então é só olhar os dados do próprio Banco Central brasileiro. Em maio de 1998, o Brasil pagava uma taxa de juros na faixa dos 8,2 por cento formada por duas parcelas: a taxa dos títulos do Tesouro dos EUA, que estava na faixa dos 4,5 por cento, mais uma espécie de sobretaxa de 3,7 por cento, para compensar o chamado "risco Brasil”; em maio deste ano, essa sobretaxa havia dobrado, para uns 7,5 por cento, e os ju¬ros totais passavam para a faixa de 14 a 15 por cento. Preste-se atenção: o Brasil tem urna dívida externa de 230 bilhões de dólares. A juros de 15 por cento ao ano, vai-se chegar, numa projeção, aos 35 bilhões de dólares em doze meses. É absoluta¬mente delirante acreditar que o país conseguirá honrar esses compromissos. Os banqueiros internacionais sabem disso, e sabem que novas crises do Real são inevitáveis. Não vão ficar esperando que elas ocorram.
Tanto no campo interno quanto nas relações com os credores internacionais, não há como fugir à realidade: as perspectivas são de rápido agravamento daqui para a frente. É absolutamente incompreensível que o governo FHC não cogite de uma "virada" em sua política econômica e lance um programa de emergência - mesmo que isso signifique forçosamente uma ruptura com o FMI, e renegociação, para o refinanciamento da dívida, com os credores internacionais. Dessa vez, a tempestade econômica que se aproxima não deixará de ser acompanhada por turbulências também nas ruas. Mesmo porque, com o aumento dos combustíveis e tarifas, o governo FHC perdeu o último trunfo que ainda mantinha sua respeitabilidade junto a vastas faixas da população, a saber, a crença de que a carestia estava derrotada definitivamente.