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  Esperança para desempregados

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 11 de setembro de 1981


No auge da avalanche de pessimismo sobre a crise mundial, lá pelos idos de 1975, a tradicional revista semanal inglesa “The Economist” ironizava a “psicose da recessão”, observando que o trágico, na área econômica, é que geralmente se diagnotisca “hoje” os problemas de “ontem”, isto é, já minimizados, tomando-se medidas para corrigi-los e que (como eles já perderam a força) acabam criando os problemas “de amanhã”.

Não fugindo à regra, o Brasil viveu nos últimos meses um clima de apreensão crescente, ante as notícias de desemprego em massa e as previsões de uma recessão sem limites.

Nesse quadro de inquietação coletiva, como apontava “The Economist”, deixa de ser feita uma pergunta fundamental: o processo de retração da economia vai continuar avançando, ou os fatores que o determinaram já estão saindo de cena, possibilitando alguma recuperação? Confunde-se o “todo” com a “parte”: toda informação sobre desemprego ou empresas em dificuldades reforça a convicção de crise – quando o importante seria detectar a tendência geral dos negócios. Esquece-se que, mesmo com a economia já em recuperação, ainda haverá setores atingidos “com atraso” pelos problemas, e empresas idem.

Alguns dados divulgados nos últimos dias, e aos quais não se deu muita atenção, ilustram bem esse comportamento. Por exemplo: às vésperas do Sete de Setembro, a Federação do Comércio de São Paulo divulgou os resultados das vendas no varejo no mês de julho, na Grande São Paulo. Conclusão: um aumento real (isto é, já descontada a inflação), de 5,6%. Isso, note-se bem, na região metropolitana, exatamente a mais atingida, em todo o País, pelos problemas da economia, já que nela se localiza o ABC, duramente afetado pela retração da indústria automobilística, com milhares de desempregados. Isso, note-se ainda, apesar da pesquisa da Federação incluir o faturamento do setor de concessionárias revendedoras de veículos, em retração, e cujo peso “ponderado” no índice é apreciável, dado o alto preço dos veículos.

A revelação confirma plenamente as observações da “Economist” sobre a “psicose da crise”: os dados surgidos “hoje”, em setembro, se referem a vendas realizadas “ontem”, em julho. No entanto, no mesmo momento em que viam suas vendas aumentar, em julho, os empresários continuavam a falar em crise, em “tudo vai mal”, ampliando o pessimismo da população (o que acaba por reforçar o ambiente negativo às vendas e aos negócios).

Pode-se alegar que a melhora observada nos negócios já em julho – e da qual os dados da Federação do Comércio são apenas um exemplo – pouco significa, pois se trata de uma comparação entre os resultados de julho e junho deste ano. Quando a comparação é feita com o mesmo mês do ano passado, a conclusão é outra, isto é, as vendas continuam mais baixas. Na verdade, este parece ser o principal equívoco nas análises da crise econômica de 81: o que importa saber, como se disse acima, é a tendência dominante: é saber se o pior já passou, se o fundo do poço já ficou para trás. Isto porque, em economia, os acontecimentos se espraiam como uma mancha de óleo sobre uma folha de papel: o perigo da desaceleração é que ela não tenha limites, atingindo setores em cadeia – até a recessão. Inversamente, iniciada a recuperação, a nova tendência também se propaga por todo o organismo econômico.

O novo alento da economia não cancela, evidentemente, a existência de milhares de desempregados e os decorrentes problemas sociais. Mas – ateste-se – ele abre perspectivas para encaminhamento de soluções também para eles – o que não ocorreria, se a queda nas atividades persistisse.

Numa visão mais ampla, quebra-se o ritmo ascendente das tensões sociais – apontado como uma ameaça ao projeto de abertura política.

Resta saber apenas se, ao procurar reativar a demanda através da redução na cobrança de Imposto de Renda na fonte, a partir de outubro, os planejadores oficiais não tenham escancarado as portas à alta de preços – já que a decisão surgiu num momento em que a economia parecia reencontrar fôlego. Terão criado, então, novos problemas inflacionários para “amanhã”.



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