Revista da Fenae , março de 1999
Para o brasileiro, nada assusta mais do que a possibilidade da inflação estar de volta, ressuscitada pela queda do real. O próprio governo, de forma deliberada, alimenta esses temores, ao anunciar insistentemente que vai manter as taxas de juros a níveis altíssimos, porque elas seriam a arma essencial para combater a inflação. Diagnóstico falso, mais uma vez, capaz de agravar a crise da economia, mais uma vez. Por quê? Afinal de contas, pode-se argumentar, a disparada do dólar encareceu uma série de importações, inclusive matérias-primas utilizadas por setores industriais, peças, componentes etecetera. Certo. Mas é preciso desfazer a confusão - alimentada fortemente pelos meios de comunicação, notadamente nas manchetes de TV - em torno da "volta à inflação". É lógico que, nos dias seguintes à desvalorização de determinada moeda de qualquer país, haja um clima de incerteza ou mesmo pânico, que leva empresas a remarcarem preços, temerosas de "ficarem para trás", perdendo sua capacidade de lucrar, ou sofrendo prejuízos. Passado o impacto inicial, porém, há um recuo (na melhor das hipóteses) nos reajustes exagerados, ou (na pior das hipóteses) uma "parada (ou desaceleração) nos aumentos - o que significa "fim" da inflação, já que ela significa "preços em alta", e não "preços altos". Moral da história: faz-se muita confusão, no Brasil, entre choque inflacionário, isto é, a alta de preços violenta, mas passageira, provocada por uma desvalorização da moeda, como agora, uma "volta à inflação", isto é, a alta contínua e cada vez mais veloz de preços, como no passado. Para infelicidade do país, o próprio governo, devidamente monitorado pelo Fundo Monetário Internacional, mergulhou nessa confusão.
O primeiro índice da inflação divulgada após a queda do real, o IGP-M, apurado pela Fundação Getúlio Vargas, atingiu 3,6%. Nível assustador? É bom lembrar que, na Rússia, quando sua moeda, o rublo, despencou, em agosto do ano passado, houve grande tumulto na economia, "corrida" dos consumidores para fazerem estoques - e a inflação chegou aos 45% em apenas quinze dias, no começo de setembro (passada essa fase, foi voltando gradativamente a níveis mais baixos). Como explicar essa diferença brutal entre as taxas de inflação russa e brasileira? Por limitação de espaço pode-se relembrar apenas o principal fator em cena: a economia brasileira já está em ritmo lento, ou recessão, há muitos e muitos meses. E daí? Nesse quadro, as empresas enfrentam quedas violentas de vendas há muitos e muitos meses, como é o caso dos automóveis e eletrodomésticos, e fazem o possível para não aumentar preços, preferindo até "engolir" uma parte da alta de custos, para não reduzir ainda mais o seu mercado. Por isso mesmo, é totalmente equivocada a política adotada pelo governo FHC/FMI: a política de juros altos tradicionalmente utilizada para "esfriar" os negócios, evitar expansão exagerada no consumo, que abre as portas à remarcação de preços. Não é o caso do Brasil. A economia está "gelada" há meses, com queda de nada menos de 9% na produção industrial em dezembro e, segundo o IBGE, recuo para o PIB nos dois últimos trimestres do ano passado.
O novo equívoco do governo FHC agrava a recessão, o desemprego, e, ainda por cima, o risco de novas e incontroláveis explosões do real. Por quê? Os juros nas nuvens, como qualquer brasileiro está cansado de saber, provocam rombos fantásticos no Tesouro da União e Estados, existindo cálculos que apontam para uma despesa extra de R$ 2,5 bilhões, no pagamento de juros, para cada 1% da taxa de juros.
Vale dizer, todo esforço de "ajuste", ou corte brutal de serviços essenciais, continua a ser devorado pelos juros, sem impedir que a dívida do governo continue a crescer. Com ela, cresce também o temor a um "calote" - os banqueiros e investidores internacionais continuam a fugir do país, que precisa de US$ 75 bilhões neste ano, no mínimo, para pagar ou "rolar" seus compromissos externos. Isto é, o fantasma da moratória continua a apavorar o mercado financeiro internacional e, sem uma guinada na política do governo, a fragilidade do real continua intocada. Infelizmente para o país, o presidente FHC continua alinhado com o governo Clinton e o Fundo Monetário Internacional, desprezando até mesmo o exemplo de países pelos quais ele manifesta forte admiração. É o caso da França, onde o governo lançou um programa para a criação de empregos, principalmente para jovens, recrutando-os para serviços públicos, ou concedendo redução de impostos proporcional à criação de vagas, pelas empresas (nada parecido com o indecoroso corte de impostos para a venda de automóveis. No Brasil, em novo privilégio inútil a empresas e trabalhadores de um setor). O programa do governo francês foi bombardeado pelos críticos conservadores, pró-neoliberalismo e pró-FMI/Clinton. Agora, no final de fevereiro, seu acerto ficou claro: a economia francesa cresceu 3,2% em 1998, a arrecadação cresceu, o "rombo" recuou e o mercado de trabalho se ampliou em 300 mil vagas. A França não obedece ao FMI/EUA.