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  Inflação, passageira?

Revista da Fenae , dezembro de 1999


Com a volta da inflação, um novo festival de humor negro desabou sobre a cabeça dos brasileiros. Enquanto o consumidor via seu orçamento estourar por causa das remarcações de preços, aumentos de tarifas, altas dos combustíveis, a equipe FHC/Malan/Fraga/FMI e os "analistas amigos" repetiam suas eternas explicações otimistas. "A alta é passageira", "as remarcações não são generalizadas, concentram-se em poucos produtos", "não há motivos para preocupações" foram os argumentos que, ao longo de outubro e novembro, ocuparam o noticiário. Será verdade? Para obter uma resposta, é bom relembrar, a esta altura, que há uma diferença, freqüentemente esquecida pelas pessoas, entre "inflação" e "carestia". Inflação significa preços em alta, preços subindo. "Carestia" significa preços muito altos - mesmo que eles não estejam mais subindo, tenham estacionado. O que isso tem a ver com o Brasil nesse momento? Realmente, alguns produtos que puxaram as taxas de inflação já estão nas nuvens, não tem condições de subir mais, como é o caso do frango, que duplicou de preços em dois meses - por causa da duplicação, também, dos preços do milho e aumentos para outras matérias-primas das rações. Na prática, isso significa que, se os preços problemáticos deixam de subir, as taxas de inflação poderiam até começar a cair. Poderiam. Mas é preciso levar em conta um outro fator: as taxas de inflação modestas dos últimos anos (somadas ao desemprego e conseqüente oferta excessiva de mão-de-obra) levaram a massa de trabalhadores a uma atitude conformista em relação ao virtual "congelamento" dos salários. Agora, esse quadro sofre uma "virada", porque, mesmo que os preços deixassem de subir, isto é, a inflação estancasse, os preços estão muito altos, a carestia estourou o orçamento das famílias. As reivindicações de reajustes salariais generalizam-se, e sua concessão inevitável trará novas pressões sobre os custos das empresas. Essa tendência de a inflação generalizar-se é reforçada por dois fatores, que o governo e analistas chapa-rosa insistem em ignorar. Primeiro: ao longo destes próximos meses, é grande a possibilidade de repiques na alta dos preços dos alimentos, por culpa total do governo FHC, que desde 1995 não compra mais as colheitas dos produtores, para livrá-los dos atravessadores - e formar estoques, vendidos exatamente em épocas de escassez.

Resultado: o país está totalmente sem estoques de arroz, feijão, milho, trigo - que poderiam ser utilizados como arma para conter os preços diante da redução de colheitas provocada pela falta de crédito (de novo) e pela estiagem no Sul (prevista há meses pelos institutos especializados, e que deveria ter levado o governo a adotar um plano de emergência para a agricultura). O segundo fator é óbvio, e já está por trás da inflação de outubro/novembro: a alta do dólar. Durante meses, depois da queda do real em janeiro, as empresas seguraram reajustes de preços, mesmo enfrentando a alta de custos resultante do encarecimento de peças, componentes, matérias-primas importadas. Os empresários confiavam nas previsões oficiais, de que, após a grande disparada na crise do começo do ano, as cotações do dólar até deveriam recuar (previsão, aliás, endossada pelo próprio FMI). A nova escalada do dólar, provocada pela desconfiança internacional diante do rombo do Tesouro (resultante, por sua vez, das taxas de juros exigidas pelo FMI) desmentiu essas expectativas, provocando o fim do "represamento" de reajustes. Como a tendência é o "rombo" piorar, as previsões de "inflação passageira" são uma triste anedota... O país continua com uma única saída para esse impasse: romper com o FMI para poder reduzir os juros e controlar as importações.



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