Revista Nova ,
Os teimosos ministros brasileiros cometeram erros em cima de erros, a dívida externa cresceu demais, o país está sem dólares para pagar seus compromissos – e todo o povo brasileiro vai ser sacrificado, este ano, com a “brecada” que a economia vai sofrer. A política de “cintos apertado” está de volta, os próximos meses serão difíceis, semeando intranqüilidade e frustrações.
Talvez seja mais fácil você suportar todos os problemas que vêm pela frente – e apesar da imperdoável inépcia dos ministros – a partir de dois dados. Em primeiro lugar, é preciso saber que a crise por ser menos prolongada do que se previa há alguns meses. Em segundo lugar, e mais importante ainda, é que a crise pode deixar um saldo positivo, provocando mudanças definitivas na economia e na sociedade brasileiras. Lógico que o melhor é que essas mudanças tivessem ocorrido sem crise e sem sacrifício para o povo. Mas a verdade é que a cegueira dos tecnocratas e a pressão dos grandes grupos e interesses econômicos sempre impediram que distorções velhissimas, sobre as quais chovem críticas há anos, fossem corrigidas pelo governo. Agora, com a crise, nem os tecnocratas nem os interesses econômicos conseguem impedir as mudanças – porque elas são exigidas pelos credores internacionais. E daí? Daí que removidas as distorções, o sacrifício que o povo brasileiro enfrentar este ano não será inútil. Ele deixará, como saldo, melhores condições para o país resolver mais rapidamente seus problemas sociais. Será uma crise transitória, em resumo, em troca da melhora permanente no bem-estar coletivo.
Quanto durará a “crise”? Por volta de agosto do ano passado (quando se avisou que ela viria, aqui nesta coluna, em NOVA), as perspectivas eram terríveis. A dívida externa brasileira caminhava para quase 90 bilhões de dólares, e as exportações caíam verticalmente devido ao agravamento da recessão mundial. Hoje, as perspectivas são menos trágicas. O que mudou? A dívida externa brasileira realmente se aproximou dos 90 bilhões de dólares, e é aterrorizante. Mas houve uma evolução favorável na economia mundial – e isso pode ajudar o Brasil a resolver seus problemas um pouquinho mais depressa reduzindo-se a quota de sacrifício do povo, gradativamente, talvez a partir do segundo semestre do ano. Gradativamente.
Em meados de 1982, a recessão mundial crescia como verdadeira bola de neve. A economia internacional descia ladeira abaixo, com recessão nos países ricos, recessão nos países exportadores de petróleo (devido à queda dos preços do produto), falta de dólares nos países em desenvolvimento, altamente endividados. Naquela época, portanto, “o pior” ainda estava por vir.
Falava-se então, e muito, em uma “quebradeira” mundial dos países endividados – porque, com a recessão, num círculo vicioso, suas exportações entraram em queda. Foi nessa época que México, Argentina, Polônia e mais duas dezenas de outros países menos expressivos pediram e renegociação de suas dívidas externas aos banqueiros internacionais, confirmando que a “quebradeira mundial” estava às portas.
A própria gravidade da crise começou a provocar mudanças. Nos EUA, o governo criou condições para os bancos reduzirem as taxas de juros, e elas caíram também no mercado internacional de 16% para 11%, reduzindo o fantástico volume de juros que os países endividados deveriam pagar, em 1983, sobre sua dívida de US$ 500 bilhões, isto é, meio trilhão de dólares. Além disso, os governos dos países desenvolvidos deram ordens a seus Bancos Centrais para que ajudassem os países endividados, fornecendo-lhes empréstimos até que eles renegociem as dívidas externas (isto é, conseguissem fazer acordos com os banqueiros para pagá-los num prazo maior e, portanto, com “prestações anuais” menores). Os próprios bancos provados internacionais, finalmente, também se dispuseram a fazer tais acordos – desde que esses países adotassem políticas de cintos apertados, combatessem desperdícios para poupar dólares e reduzir o ritmo de crescimento de sua dívida.
Com esses acordos, a economia mundial ganhou maior tranqüilidade, e negócios que vinham deixando de ser feitos – agravando a recessão – passaram a ser concluídos.
Além disso, vários países em dificuldades haviam decidido reduzir suas importações já no final de 1981 – o que mostra como os ministros brasileiros demoraram para “acordar” para o problema mundial. Com isso, já no final de 1982 eles obtinham saldos positivos em sua balança comercial (isto é, exportações menos importações). O México fechou o ano de 82 com um superávit de US$ 3 bilhões, a Argentina com um resultado favorável de US$ 2,5 bilhões, além de outros exemplos.
O que isto significa para o Brasil? Que o momento mais grave da crise mundial foi no segundo semestre do ano passado. Que muitos países, como o México, com sua dívida consolidada a saldos na balança comercial, poderão começar a aumentar suas importações (inclusive do Brasil) já este ano.
Em resumo, a situação mundial pode melhorar, gradativamente, à medida que os meses forem passando. Isso terá reflexos sobre o Brasil – que será forçado, porém, a combater seus monumentais desperdícios, para conseguir superar os problemas criados por sua inacreditável dívida externa. O que acabará sendo um bem para o seu povo.