Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 30 de abril de 1996
O governo anuncia que vai desapropriar terras pertencentes a fazendeiros que tenham dívidas com o Banco do Brasil, para assentar os sem-terra e acelerar a reforma agrária.
Ninguém duvida que a questão agrária seja uma das prioridades nacionais. Mas a proposta é uma nova e monstruosa ilegalidade, dentro da escalada de autoritarismo e destruição do Estado de Direito empreendida, desde seus primeiros dias, pelo governo FHC.
Estimulados pela falta de reação da sociedade, os atuais governantes já vinham atuando como senhores da chuva e do vento, com sucessivos atos de desrespeito às leis e à Constituição, não faltando nem mesmo investidas contra o direito de propriedade.
Pouca gente se deu conta, até hoje, de que essa política já havia ultrapassando limites perigosos com o projeto de socorro aos bancos, o Proer.
Passando por cima de todas as leis, o governo FHC, monstruosamente, só deu o direito de fazer a "cisão", isto é, dividir em partes, esquartejar, bancos que estivessem em dificuldades e sofressem intervenção do governo.
Naquele momento, o próprio direito de propriedade foi cancelado no Brasil. A monstruosa inovação deu ao governo FHC o direito de confiscar patrimônios e dá-los, vendê-los, destruí-los como bem entender.
Acionistas controladores, acionistas minoritários, credores, fornecedores, cujos direitos eram assegurados por leis diversas, que se danem: o governo divide o patrimônio dos bancos em partes "boas", entregues a quem ele bem entender, e deixa a "parte podre", o "rombo", não apenas para o Tesouro, como se tem pensado _mas para todos aqueles "donos" do patrimônio do banco. Monstruosidade jurídica, repita-se, recebida com indiferença, mesmo por entidades empresariais.
Fica-se com a sensação de que o silêncio generalizado das entidades empresariais diante das arbitrariedades do governo FHC é uma espécie de jogo perigoso. Suicida.
Por ele, fecham-se os olhos a cada nova ilegalidade, na esperança de que, mais cedo ou mais tarde, o seu próprio setor consiga arrancar uma ou outra vantagem, ilegal, dos governantes sem-lei. Visão estreita. Suicídio a médio prazo. Que já está chegando. As leis já não valem nada no Brasil.
A venda do Econômico ao Excel foi aprovada pelo Conselho Monetário Nacional. O CMN, hoje, são os senhores Malan, ministro da Fazenda; José Serra, ministro do Planejamento; e Gustavo Loyola, presidente do Banco Central. No passado, era integrado por representantes dos empresários e dos trabalhadores. Até o governo sem-lei.
Organismos internacionais, como a ONU, exigiram que o governo brasileiro combatesse as remessas fraudulentas de dólares (por causa da lavagem do dinheiro do narcotráfico), meses atrás. O governo FHC não fez novas normas, a serem observadas por todos os bancos. Não. O BC telefonava aos banqueiros, ameaçando represálias se não mudassem de comportamento.
O Congresso exigiu que o projeto de socorro aos bancos proibisse que seus diretores voltassem a atuar no mercado de capitais. O governo FHC "concordou", mas de forma "sui generis": não incluía a proibição no projeto. Disse que a proibição seria "de boca", isto é, a negativa seria comunicada verbalmente aos executivos.
O valor das ações do BB despencou com o anúncio da "operação afundamento" desencadeada pelo governo FHC. Mas o Previ, fundo de pensão dos funcionários, vai subscrever ações, no aumento de capital, por valor acima do que poderia pagar em Bolsa. Ordens superiores. Em que país isso seria tolerado?
A CEF vai ficar com R$ 1,7 bilhão em créditos que o Econômico tinha a receber de tomadores de empréstimos para comprar casas. O governo anunciou a operação como vantajosa para a CEF. Diretor do Excel dá outra versão: o banco "comprador" não quis esses créditos, "de difícil recebimento".
O governo ataca o Judiciário por "morosidade". O Judiciário é moroso porque, como toda a máquina do governo, está desaparelhado. Equipes econômicas seguram suas verbas.