Equipe de O Brasil de Aloysio Biondi
Entrevista realizada em 2004
O texto está dividido em quatro partes:
I – Primeiros Anos
II – A Ditadura
III – A Democracia
IV – Últimos Anos
IV – Últimos Anos
O Brasil é pouco generoso com quem não se rende ao mercado. Nos anos 90, Biondi é banido dos grandes veículos comerciais de comunicação, muitos dos quais ele ajudou a construir. Foi também o período em que ele aprofundou sua relação com setores da esquerda e dos movimentos sociais, por meio de um agir jornalístico a partir da imprensa alternativa. É a época, também, do embate contra as privatizações.
Acho que vale a pena você falar um pouco mais desse segundo momento do Diário da Manhã... Washington - Bom, num segundo momento, ele voltou ao jornal e deu um impulso muito grande ao jornal e começou a crescer. Mas alguns meses depois começou a se evidenciar a crise econômica do jornal. Ou seja, o jornal não se sustentava. E o Aloysio, com a disposição dele, acabou assumindo a direção financeira do jornal.
Estamos falando de 1994. Era uma coisa muito dura. A gente se encontrava pouco, inclusive, porque ele trabalhava muito. Saía do jornal muito tarde. Conversávamos pouco, eu tinha voltado a escrever para o jornal. E era engraçado porque como nós éramos amigos eu era a última pessoa a receber. Nesse período que ele coordenou a parte financeira eu quase não recebi (risos).
Foi um período de muita frustração para ele. O Aloysio gostava muito de Goiânia, queria ficar aqui, mas não teve jeito. Não tinha a menor condição. Ele voltou para São Paulo, para o DCI por um tempo, e nós nos encontrávamos quando eu passava por São Paulo, que era muito pouco, muito raro…
Tem três projetos seguidos que o Aloysio acaba assumindo a posição de tentar elaborar um projeto do início ao fim. De todo o controle de todo o conjunto da redação, de toda a parte administrativa, de ocupar uma função ainda mais ampla, e tanto o Diário da Manhã e o Shopping News DCI são marcados por problemas em relação ao recebimento de salários, dificuldades de tocar o projeto. Você identifica aí o momento em que o Biondi apostou em projetos maiores, tentando criar um projeto, mesmo com o risco… Washington – Eu acho que no DCI, principalmente, ele apostou muito. Ele queria fazer e fez uma porção de acordos. E quando a gente conversava eu dizia: “Você é louco! Não faça uma coisa dessas”. Primeiro porque com um enorme sacrifício pessoal sempre, de muito trabalho. Segundo, de sacrifício financeiro, abrindo mão de uma porção de coisas. Lá no DCI ele fez dois acordos. Quando ele fez o segundo, o cara já tinha sacaneado muito ele da primeira vez.
Eu dizia para ele: “Pô, ce vai de novo? Aceitar essa coisa desse cara?” Mas ele queria de qualquer jeito, que o projeto não morresse, e fez um trabalho muito bonito, do pouco que eu acompanhava. Tanto o Shopping News quanto o DCI tiveram fases muito bonitas, muito brilhantes.
Você diferenciaria dos outros momentos da carreira, de tentar criar um projeto próprio, ou esse espírito sempre existiu, mesmo na fase do Diário da Manhã, da Folha?
Não sei. Não sei se o Aloysio chegou a ter um projeto próprio de fazer ou um jornal ou uma revista dele. Sempre teve essa coisa de não ter recursos e de ter sempre que se engajar em um projeto através do qual ele pudesse realizar as coisas com as quais ele sonhava. Agora eu acho que tem uma coisa do Aloysio que precisa ser destacada, desde que eu o conheci até ele morrer, ele sempre teve uma característica de não buscar nem aceitar o poder. O poder, eu digo, através da comunicação.
Buscar o poder ou se associar com o poder. Isso foi uma marca dele, essa coisa sempre de estar do outro lado, de estar de fora, de ter uma posição crítica, estar numa posição diferenciada, a serviço da sociedade, não aceitar cooptação, não buscar a cooptação, não buscar ganhar dinheiro, nunca se importou em ganhar dinheiro, ficar rico. Morreu do jeito que eu o conheci, sem nada.
O Aloysio, dele, não tinha nada. O Aloysio não era uma pessoa que tinha propriedades, que tinha bens, que tinha carro, apartamento próprio, receita própria, tinha dificuldades de sobrevivência. Preferia fazer artigos para jornais de sindicatos do que se dobrar a outras imposições. Isso foi uma marca dele. Uma coerência nessa posição de chegar a ter momentos de extrema dificuldade financeira, extremas dificuldades na vida dele, vários desses momentos. Mas essa fidelidade a essa posição do jornalista como alguém que está ali para servir à sociedade, não é para servir ao poder, a si mesmo, nada disso aí.
E nem sequer a partidos políticos, a facções políticas. O Aloysio nunca pertenceu a nenhum partido político, mesmo no final da vida quando ele esteve mais próximo do PT, da Fundação Perseu Abramo, mesmo aí ele não tinha um engajamento direto, pessoal, nessa linha.
A razão da segunda vinda dele, da segunda passagem dele por aqui. O jornal já não estava muito bem. Washington – Mas ele não sabia. Ele achava que teria condição de fazer. De de novo levar o Diário da Manhã àquilo que a gente tinha sonhado.
Você identificaria algum momento de maior dificuldade de realizar os projetos, de conseguir alguma estabilidade? Washington – Acho que o período mais difícil foram os últimos anos. Foi o período em que ele não estava em nenhuma coisa mais fixa. Ele tinha uma coluna no Diário Popular e fazia os textos dele para os jornais de sindicato. Foi um tempo muito difícil, de grande dificuldade financeira, mas não mudava. Mais ou menos nesse tempo, no fim da vida dele, a Folha chegou a convida-lo para voltar para lá, para escrever um artigo por semana e ele não quis. Só toparia se fosse uma página.
Ele não topou voltar. Nesses últimos anos, quase todas as conversas que nós tínhamos centravam num ponto onde eu tentava convence-lo de uma coisa, mas ele não se convencia. Eu dizia: “Aloysio, eu acho que você deveria mudar o tom do que você escreve. Você escreve de uma forma muito enfática, muito agressiva. Eu acho que isso vai te tirando espaços. Eu acho que o que você pensa é importante demais para você sacrificar isso pelo tom. De você aceitar perder os seus espaços em função de um tom. Eu acho que você devia baixar o seu tom, acalmar um pouco, e ganhar espaço. Dizer isso em mais lugares, com maior freqüência, e você também ter uma vida mais fácil com essa coisa”. Em princípio ele sempre concordava, mas na prática não.
Eu acho que isso se refletia até em algumas conversas que ele teve com a gente. Ele terminava de escrever um artigo, começava a reler, colocava a mão na cabeça – me lembro de ele ter feito umas duas ou três vezes isso – e dizer: “Eu acho que eu acabei de escrever um panfleto”. (risos) Washington – Essa nossa conversa foi muito freqüente nos últimos anos, no final da vida dele. Porque eu continuo achando isso. Acho que é uma pena que ele não tivesse tido mais espaço, e o pensamento dele mais disseminado, que era um pensamento importante, uma visão importante, de realidade brasileira.
Lembro-me de uma vez, encontrei num corredor do Congresso o Zé Dirceu, que é ministro da Casa Civil (na época em que a entrevista ocorreu o termo Mensalão jamais tinha sido ouvido na República Federativa do Brasil), e ele veio me dizer que ele gostava muito do que o Aloysio e eu escrevíamos porque era uma visão muito diferenciada do Brasil do que a imprensa passava.
Agora, acho que isso era um pouco do temperamento italiano do Aloysio. Essa coisa (gesticulando e imitando um italiano nervoso) rrrroum! Ele não conseguia dominar ou abrir mão dessa coisa. E eu acho que se ele tivesse conseguido ele teria ocupado um espaço muito maior e mais influente e, por paradoxal que possa parecer, com menos dificuldade de vida. Mas isso é uma visão que eu tenho. Mas ele não conseguia. Ele concordava, em tese com o que eu dizia, mas na prática, não funcionava.