Jornal Folha de S.Paulo , segunda-feira 9 de novembro de 1981
O plano para criação de 250 mil empregos no País – 100 mil diretos e 150 mil indiretos, aprovado em princípio pelo vice-presidente em exercício, Aureliano Chaves, continua a enfrentar a oposição de escalões técnicos dos ministérios da área econômica. Embora as diretrizes aprovadas prevejam prioridade exclusiva para setores que não ampliem as importações de petróleo (e o consumo de energia em geral) os opositores do programa vêm insistindo na tese de que as duas metas – criação de empregos e contenção do consumo de energia — são incompatíveis, e que ampliar o mercado de trabalho conduz, forçosamente, a maiores gastos com petróleo, com reflexos negativos sobre o endividamento externo do País.
Além de desconsiderar o aspecto social, da necessidade de criação de empregos (objetivo final de qualquer política econômica), o argumento, na verdade, também tem pouca fundamentação econômica. Segundo o economista Hélio Zylbertain, da Fipe-USP, que vem preparando uma tese sobre a relação entre energia e trabalho dentro da economia brasileira, em muitas áreas o consumo de energia – e de petróleo — decorrentes da criação de empregos é absolutamente insignificante (v. tabela).
Com base em matrizes do IBGE, Zylbertain mostra que, na lavoura, por exemplo, cada emprego criado traz um consumo adicional de energia equivalente a 1,4 barril. Além disso, como apenas 42% da energia consumida proviriam efetivamente do petróleo, o consumo adicional cairia, na verdade, para apenas 0,58 barril, isto é, pouco mais de melo barril por ano. Em outras palavras, se houvesse a criação de 100 mil novos empregos na lavoura, o consumo adicional de petróleo equivaleria a 50 mil barris por ano – cifra ridícula, quando comparada ao consumo diário, de 1 milhão de barris do produto – por dia. A 34 dólares o barril, aqueles 50 mil barris extras representariam apenas 1,7 milhão de dólares por ano – sobre Importações totais na casa dos 22 bilhões por ano.
Deve-se notar, diz Zylbertain, que esse nível de consumo de energia na lavoura (e demais setores constantes da tabela) não corresponde apenas a combustíveis usados pelos tratores e máquinas, eletricidade para movimentar moto-bombas etc. Nossos cálculos, baseados naquelas matrizes do IBGE, já abrangem todas as formas de consumo de energia resultantes de todas as atividades desempenhadas para chegar ao produto final da lavoura. Por exemplo: eles já englobam a energia consumida na produção dos fertilizantes. Ou representada pelo desgaste anual dos tratores e máquinas.
Na indústria de vestuário, exemplifica ainda Zylbertain, cada emprego criado representaria um consumo de energia equivalente a 13 barris de petróleo por ano (dos quais somente a metade, isto é, 6,5 barris representados realmente por petróleo). Aqui, o nível de consumo apurado abrange até a energia consumida, por exemplo, na lavoura produtora do algodão ou outra fibra natural utilizada para a fabricação dos tecidos utilizados no vestuário. No caso desse setor, o consumo de 6,5 barris por ano, para cada emprego, representaria 650 mil barris, no caso da criação de 100 mil empregos – ou, com o barril a 34 dólares, o equivalente a 22,1 milhões de dólares.
OS GRANDES PROJETOS
Os dados reunidos por Zylbertain comprovam, assim, que o País pode traçar uma política para rápida expansão do mercado de trabalho, sem causar problemas ao balanço de pagamentos, isto é, sem aumentar o endividamento externo. Para que isso ocorra, porém, deve haver a seletividade prevista no programa em discussão, isto é, os estímulos e investimentos do governo devem concentrar-se em setores onde a proporção entre emprego criado e consumo de energia é baixo. No reverso da medalha, os mesmos dados mostram que exatamente os grandes projetos de exportação – na área de mineração e metalurgia –, defendidos pelo ministro do Planejamento, são altamente consumidores de energia e de petróleo, vale dizer, os dólares obtidos com esses projetos de exportação podem ser consumidos, "do outro lado", pelas importações de petróleo (ou pelos empréstimos exigidos para desenvolver outras fontes de energia). Mais uma vez, a questão de criar ou não empregos desemboca no problema global do "modelo de desenvolvimento" a ser adotado pelo País. Deve-se crescer mais vagarosamente, investindo-se porém, na criação maciça de empregos? Ou crescer mais rapidamente com base em grandes projetos de exportação que, na verdade, oferecerão menor contribuição à solução do problema da dívida externa?