Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 1º de fevereiro de 1996
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, sentiu-se ofendido em sua honra pessoal, com as revelações de que teria participado de um acordo para a maquiagem, ou falsificação, dos balanços do Banco Econômico. Aceita-se a reação do ministro, que, repetindo o presidente FHC, atacou o "denuncismo da imprensa". Aceita-se, mas não se compreende.
O ministro está incorrendo no mesmo erro, um erro monumental, a que o povo brasileiro tem sido induzido _em parte por falha dos formadores de opinião. No Brasil, ao estourarem "escândalos", e não apenas no mercado financeiro, cada cidadão automaticamente pensa tratar-se de "corrupção".
Isto é, automaticamente pensa que tudo se deve ao suborno de funcionários (geralmente subalternos) ou "políticos desonestos". É um engano, um mito do qual a sociedade precisa se livrar.
O favorecimento a grupos financeiros ou empresariais no Brasil não é uma exceção, um ato isolado, marginal, praticado com o objetivo de enriquecimento pessoal por escalões de governo. Os "grandes negócios" praticados no país têm sido a rotina, e têm sido decisões do governo (da União e Estados): o que está em jogo, para os governantes, não é "ganhar dinheiro", mas obter apoio político daqueles segmentos econômicos.
Mesmo no caso de superfaturamento, de rodovias ou compras de material pelo governo? Mesmo aí. É óbvio que em 1% dos casos alguém pode estar colocando dinheiro em seu próprio bolso.
Mas, em 99% dos casos, e é bom que a opinião pública descubra isso, o superfaturamento tem outro objetivo: o dinheiro "extra" pago às empreiteiras/fornecedores volta "por fora", vai para a "caixinha" de partidos, para financiar campanhas eleitorais.
O ministro Malan pode ficar tranqüilo, portanto. Ninguém duvida que, o apoio ao Econômico foi uma decisão de governo, igualzinha a tantas outras que têm colocado o Estado brasileiro a serviço dos lucros de grupos empresariais.
Malan nega ter participado de acordos para maquiar balanços, na época em que era presidente do Banco Central. Muito bem. Mas já está comprovado que o governo vinha injetando bilhões de reais no Econômico há muitos anos.
E o auge do "socorro" ocorreu quando Malan presidia o BC, e o ministro da Fazenda era Fernando Henrique Cardoso.
Tanto no caso do Econômico como do Nacional, o Banco Central decidiu ficar com a "parte podre", e entregar a "parte boa" aos compradores. Qualquer empresário, ou qualquer cidadão sabe que isso é um contra-senso. Se uma empresa mantém a parte lucrativa de seu negócio, terá condições de ir cobrindo os prejuízos, ao longo do tempo, resultantes das operações mal sucedidas.
Caso contrário... Em bom português: o Banco Central já resolveu que, na prática, vai ficar com os prejuízos dos bancos. Ou melhor, o Tesouro já ficou com o "rombo". Isto é, os contribuintes vão pagar.
Em entrevista ultra-otimista, o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Gustavo Franco, diz que os dólares que estão entrando no Brasil não são mais "capital especulativo", como em 1995.
Atribui a pretensa melhora a medidas que o governo tomou, no ano passado, para combater "jogadas" com o dólar. Para isso, diz Franco, o Brasil pediu a ajuda do Banco Central dos EUA.
Não foi bem assim. O Banco Central dos EUA é que intimou o governo brasileiro a fiscalizar as operações feitas por agências de bancos brasileiros em território norte-americano. Está nos jornais de setembro do ano passado. É só pesquisar.
Quando estourou o caso Econômico, surgiram revelações sobre depósitos de centenas de milhões de dólares no exterior, do próprio banco ou clientes.
Fraudes? Não. Operações legais, graças a normas "flexíveis" criadas pelo BC desde 1992, e que ele se nega a mudar, recusando propostas nesse sentido feitas pela Secretaria da Receita e Ministério Público. O ministro Malan sabe disso? Ou não teve tempo para acompanhar o caso?