Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 16 de fevereiro de 1982
Surpreendentemente, o ministro Delfim Neto abandonou o papel de tradicional adversário da reforma tributária e admitiu que ela é necessária para o País. Ao acrescentar, porém, que as mudanças não deverão vir "este ano", acabou criando dúvidas quanto aos objetivos de sua aparente conversão: declarar-se a favor da reforma tributária e adiá-la para o futuro incerto não será a melhor forma de simplesmente tentar enterrar o debate que vinha crescendo em torno do tema?
A desconfiança não seria infundada: afinal, a última vez que as mudanças foram amplamente defendidas, chegando-se à sua quase adoção, foi em 1979, na época do ex-ministro Rischbieter, afastado do cargo (também) pelas posições que assumiu nessa área. Na época, o Planejamento alegou, como agora, que o momento não era oportuno, dentro da tática de concordar, aparentemente, e torpedear a iniciativa, na prática. Um estratagema que sempre deu certo — tanto que, nestes dois anos e meio, ninguém mais incomodou o Planejamento com propostas "reformistas”.
A atual situação da economia brasileira, no entanto, permite que se levante outra hipótese: o ministro do Planejamento pensa em mudanças na área da cobrança de impostos, sim — e vai implantá-las de surpresa.
Por que as declarações em contrário? Exatamente para evitar o debate, para impedir a sociedade de discutir alternativas — principalmente porque, a esta altura, não se pode discutir apenas a distribuição da carga de impostos no País. É preciso rediscutir o "modelo", estabelecer objetivos para a sociedade, e ver como a política fiscal pode contribuir para que eles sejam alcançados. Se isso não vier a ser feito, a "reforma fiscal" que estaria em estudos no Planejamento seria mais uma encenação, mais um remendo num modelo insustentável: seu objetivo real seria apenas arrecadar mais, tentando tapar os buracos inundáveis que estão ameaçando levar a economia do País a pique.
Em janeiro último, o governo não conseguiu — pela primeira vez em muitas décadas — recolher o dinheiro emitido para atender aos negócios de fim de ano: ao contrário, emitiu ainda mais, perdendo-se o controle dos meios de pagamento, o que, teoricamente, provoca inflação. Sempre hábil, o Ministério do Planejamento está tentando responsabilizar o Banco Central pelo "descontrole" — resultante, na verdade, do "nó" em que a economia está metida por falta de planejamento do Planejamento. As emissões surpreendentes de janeiro foram necessárias para cobrir um déficit de quase Cr$ 50 bilhões do Tesouro — e para pagar prestações vencidas, e não honradas, da dívida externa das estatais (sob "controle" do Planejamento).
O País precisa avaliar, bem, a esta altura, o círculo vicioso em que está encerrado, pela insistência em um modelo caduco: Gastando mais do que podem, as estatais forçam o Tesouro a cobrir seus déficits, com descontrole na política monetária — e inflação. Além disso, as estatais da área de serviços públicos vêm aumentando suas tarifas na tentativa de cobrir seu déficit; esses aumentos, porém, provocam retração no consumo por parte dos usuários, exigindo novos aumentos — também provocando inflação (e sem resolver o problema do déficit).
Além da inflação, aprofunda-se a estagnação. A esta altura, é preciso lembrar um dado fundamental: os gastos das estatais vêm crescendo assustadoramente sem beneficiar a indústria nacional de equipamentos. Ao contrário, os acordos que o ministro do Planejamento vem fazendo no Exterior estão representando importações maciças de bens de capital que poderiam ser produzidos no País — impostas pelos credores, como condição para conceder novos empréstimos ao Brasil, na "rolagem" da dívida externa.
Em conclusão: no "modelo" do ministro do Planejamento, persistem os grandes projetos, voltados para as exportações, a pretexto de que eles ajudarão a pagar a dívida e permitirão que o País continue a crescer. Na prática, o País está importando desnecessariamente, endividando-se mais e mais, reduzindo a produção de suas fábricas, ampliando o desemprego — e criando déficits para o Tesouro, emissões e inflação. Aumentar impostos para cobrir o rombo das estatais é tentar prolongar a agonia do "modelo". Do povo.