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  Mas há quem ame a “inflação velha”

Jornal DCI , sexta-feira 28 de janeiro de 1977


Ao fazer um balanço do desempenho da economia em 1976, o ministro da Fazenda considerou satisfatórios os resultados obtidos na luta contra a inflação. É preciso ver, dizia ele, que os índices da Fundação Getúlio Vargas foram "inchados’’ por uma alta de 70% nos preços dos produtos agrícolas e estes, por sua vez, cresceram devido quase exclusivamente à disparada dos preços do feijão (mais de 150%) e do café (mais de 100%). Um analista lógico levantaria pelo menos duas hipóteses, a partir dessa argumentação do ministro:

1 - A inflação brasileira de 1976 se deveu realmente ao feijão e ao café. Então, aceita essa hipótese, não teve o menor sentido as autoridades monetárias terem adotado uma violenta política de restrição de crédito para conter a demando e combater a inflação, dentro da teoria monetarista. Mandaria o bom senso que se buscassem esquemas para reduzir os preços desses dois produtos, também com medidas de bom senso, e deixando as reguinhas de cálculo de lado.

2 – A inflação brasileira de 1976 não se deveu ao feijão e ao café. Aceita essa hipótese, pode-se falar com seriedade sobre o problema do combate à inflação, no País. Exercícios de lógica à parte, a inflação e a política ideal para enfrentá-la, continuam como temas predominantes no atual momento brasileiro, pois delas, e dos rumos da balança comercial, vai depender a economia brasileira em 1977. Os empresários, e a opinião pública em geral, verificam perplexos que já surgem na imprensa comentários e análises defendendo um "endurecimento" ainda maior na política de crédito este ano. Já surgiram até análises que consideram o orçamento monetário para 1977, ontem anunciado, com os limites previstos para a expansão do crédito, demasiado benevolente e, por isso, inflacionário. Como disse com toda razão o ministro da Fazendo, a propósito das recentes críticas da Fiesp, efetivamente, no Brasil, a esta altura estão surgindo “monetaristas” mais ardentes do que qualquer um dos técnicos que já passaram pelo Ministério ou pelo Banco Central.

Simples lembrança

Não vale a pena dar atenção a discussões acadêmicas em torno dos efeitos do controle dos meios de pagamento sobre a inflação. É suficiente lembrar que a "disparada" nos preços em 1976, da ordem de 4 a 5% ao mês, ocorreram nos primeiros seis meses do ano, como conseqüência, sobretudo, de quatro fatores: o encarecimento das importações através do depósito prévio (sobretudo matérias-primas), o encarecimento dos derivados de petróleo, como política deliberada a pretexto de conter o consumo, a liberação e a disparada das taxas de juros, que jogaram os custos financeiros das empresas às nuvens, e, finalmente, a orgia especulativa no mercado financeiro.

Fora desses dados de realidade, tudo o mais é fantasia – ou teoria. É importante ter esses dados em mente, para verificar que, na prática, o País reúne hoje condições totalmente diferentes das registradas em 1976, para vencer a inflação – e ela poderá declinar, se essas condições não forem desperdiçadas pelos teóricos.

Antes de analisar essas condições, porém, é preciso que uma condição fundamental seja apontada: o País precisa parar de raciocinar na base de que “temos uma inflação de 46% ao ano”. Ou, mais claramente, é preciso que os próprios técnicos do Governo, empresários e, principalmente, a imprensa, parem de falar na inflação “velha”, e falem na inflação “nova”, pois o comportamento atual cria todo o clima para a manutenção da mentalidade altista. Como assim? Em abril, maio, junho e julho de 1976, as taxas de inflação eram de 4 a 5% ao mês. Então, naquele momento, podia-se dizer que “a inflação brasileira marcha a 5% ao mês”. Mas em outubro, novembro e dezembro ela esteve abaixo dos 2,5%. Então, hoje, agora, neste momento, não se pode obviamente dizer que "a inflação brasileira marcha a 5% ao mês" e, sim, "que a inflação brasileira marcha a 2,5% ao mês". Mais importante ainda: não se pode falar que a inflação brasileira é atualmente de 46% ao ano, pois esses 46% são a soma dos índices altíssimos do “passado”, do primeiro semestre de 1976, com os índices reduzidos do "presente", de outubro, novembro e dezembro. Óbvio, mas esquecido pelos próprios técnicos oficiais, pelos empresários e pela imprensa. E, pior ainda, pelo mercado financeiro que, à custa dessa amnésia, vai engordando os seus lucros.

Quanto o quê

É essa conveniente amnésia que esta sendo usada pelo mercado financeiro, com a complacência das autoridades monetárias, para continuar cobrando taxas escorchantes de juros às empresas e ao consumidor. Já se mostrou que em nenhum país do mundo — conforme lembrava o próprio ministro da Fazenda após sua posse __as taxas de juros eram iguais à inflação, sendo sempre inferiores a ela, exatamente para não realimentá-la (v. artigo anterior, "A Ordem é Alimentar a Inflação?", publicado na edição de ontem, 26/1/76). Mas, ainda que se decidisse que elas pudessem ser ligeiramente superiores à inflação, no Brasil (País que sempre prima por ser uma "ilha"), ainda assim nada justificaria os seus níveis atuais. Habilmente, o mercado financeiro tira proveito de que, na mente do empresário ou do cidadão comum, está gravada uma taxa de inflação de 46% em 1976 — e aproveita para cobrar taxas que parecem pouco superiores a esse nível. E, no entanto, essa é uma “inflação velha”, não a “inflação atual” Em outras palavras, a inflação mudou, entrou em declínio – mas não as taxas de juros.

Nem em teoria

Mais concretamente: costuma-se dizer que, com uma inflação de 46% ao ano, é justo que o aplicador receba 40, 45 ou 50% ao ano pelo dinheiro que entrega às instituições, e estas, por sua vez, cobrem 50 60 ou 70% ao ano a quem procura empréstimos. No entanto – as estatísticas estão aí, para demonstrar – a inflação dos últimos meses não está na casa dos 46% ao ano, e sim pouco acima de 30% ao ano (para 2,5% ap mês). Um dado convenientemente omitido e às vezes até deliberadamente esquecido — por quem tira proveito da confusão.

Todos esses dados mostram que as autoridades monetárias podem exigir, já, uma queda nas taxas de juros. Esse declínio seria uma contribuição imediata — e poderosa — para a própria queda da inflação. É preciso ver que, se uma empresa ainda hoje, toma dinheiro emprestado a 40, 50 OU 60% ao ano, procurará cobrar uma parte desses custos, lançando-a nos preços de seus produtos. Se as taxas de juros caíssem para 30% ao ano, ou mesmo menos, essa prática cessaria — sem falar no impacto psicológico que a redução das provocaria entre os empresários e a opinião pública, quebrando também o “comportamento altista”.



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