Jornal Diário Popular , sexta-feira 17 de março de 2000
Se as Bolsas de Valores atraem apenas uma minoria de investidores (só nos EUA é diferente), por que sua queda provoca terremotos em todos os mercados financeiros, e chega a desencadear crises econômicas mundiais? Os analistas econômicos gostam de jogar a culpa nos ombros dos milhões de ‘‘pequenos investidores’’ que entram no mercado nas fases de alta, e entram em pânico quando o mercado sofre um abalo qualquer, passando então a vender as ações a qualquer preço.
Essa interpretação é uma grossa mentira, para proteger os verdadeiros culpados, a saber, os banqueiros, as corretoras, os grandes investidores — que todos tratam como se fossem ‘‘gênios financeiros’’, quando o mercado está subindo sem parar.
Pra você entender melhor o problema, basta relembrar o caso de um dos maiores fundos de investimentos dos EUA, chamado LTCM, que ‘‘quebrou’’ há uns dois anos. Fundado por dois economistas que tinham até sido vencedores do Prêmio Nobel, o LTCM tinha um capital de apenas 2 bilhões de dólares, mas chegou a receber 120 bilhões de dólares (sessenta vezes o seu capital...) em dinheiro de investidores para aplicar no mercado, e fez aplicações de 1,2 trilhão (é trilhão, mesmo) de dólares, uma cifra espantosa quando se lembra que o PIB (valor do bens e mercadorias produzidas no País durante um ano) dos EUA está na casa dos 8 trilhões de dólares.
Como é possível alguém com um capital de 2 bilhões movimentar 1,2 trilhão? Uma das principais explicações para a maluquice é esta: nas Bolsas e mercados (chamados futuros) a elas ligados, há operações para a compra e venda de ações (e outros títulos) para pagamento somente daí a 90 dias, 120 dias, 180 dias.
Para garantir esses contratos, basta fazer um depósito em dinheiro (que os técnicos chamam de ‘‘margem’’), geralmente de apenas 10% do valor do negócio. Em alguns casos, nem esse depósito é exigido, bastando que os ‘‘compradores’’ e ‘‘vendedores’’ apresentem um ‘‘fiador’’ — isto é, um banco que seja o avalista do contrato.
Como você já deduziu, trata-se de uma especulação de altíssimo nível, que pode dar lucros de bilhões e bilhões aos participantes, mesmo que ele não tenha aplicado realmente dinheiro no negócio, como era o caso do LTCM. Enquanto as bolsas estão em alta, tudo vai bem. Quando elas começam a cair, os compradores sofrem prejuízos gigantescos (porque fecharam um contrato para pagar 100 por uma ação que passou a valer só 90, ou 80 ou menos ainda). Como eles haviam feito negócios fantásticos, de valor muito acima do seu capital, a partir de certo momento não conseguem continuar pagando seus compromissos — e chega a vez de os bancos que foram ‘‘fiadores’’ terem de entrar com o dinheiro, sofrendo também ‘‘rombos’’ e prejuízos.
Para cobri-los, são também forçados a vender ações e liquidar outras operações financeiras, acelerando a queda em todos os mercados e desencadeando uma onda de quebradeiras. É essa perspectiva que o desabamento do mercado de ações norte-americanos traz de volta. Desta vez, há um possível freio contra a crise mundial. Representado, ironicamente, pelo petróleo, como se verá amanhã.