Jornal Folha de S.Paulo , sábado 17 de abril de 1982
A indústria paulista registrou ligeiros indícios de recuperação, em fevereiro último, segundo os dados ontem divulgados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Interrompendo, aparentemente, a tendência de queda observada desde o final do primeiro trimestre de 1981, os resultados, no entanto, indicam apenas uma modesta reação em relação ao baixo nível de atividade do setor, provocado pela política de contenção da economia. O processo de queda, além disso, poderá retornar à cena, diante dos problemas que a exportação de produtos industrializados brasileiros – inclusive carros, autopeças, têxteis – vem enfrentando, em escala crescente, nas últimas semanas.
As estatísticas da Fiesp mostram que o desempenho industrial de fevereiro foi mais favorável às empresas do que ao mercado de trabalho (ver tabela). Segundo a Fiesp, a capacidade utilizada de produção subiu para 75%, contra 73,8% em janeiro, mantendo-se uma ociosidade ainda alta, de 25%, porém mais favorável que os 26,2% do primeiro mês do ano. Mais importante ainda – para as empresas – é que seu faturamento, em termos nominais, subiu 8%, contra uma inflação de 6,8% no mês, isto é, houve pequeno crescimento real. O único dado relativo à produção aparentemente negativo correspondeu ao consumo de energia, cujo índice caiu de 104,2 para 101,5. Com base no comportamento positivo dos outros dois índices, pode-se considerar, no entanto, que esse recuo se deve a problemas específicos de alguns subsetores que consomem energia em alta escala e têm, portanto, forte ponderação no cálculo do índice global.
EMPREGO E SALÁRIOS
Do ponto de vista do mercado de trabalho, os resultados de fevereiro são menos satisfatórios, justificando a nova proposta do ministro do Trabalho, Murilo Macedo, no sentido de que o governo lance um programa de emergência para a criação de empregos. O índice de pessoal ocupado acusou levíssima melhora, após ter permanecido estável, em janeiro, em relação a dezembro. Pior ainda, o total de salários pagos permaneceu igual ao resultado de janeiro – que, por sua vez, já fora igual ao total de dezembro, sempre em termos nominais, não “descontada” a inflação do período. Como o primeiro bimestre do ano acusou uma taxa inflacionária de 12,6% foi essa a redução real na massa de salários recebida pelos trabalhadores – e paga pela indústria.
ILUSÃO ESTATÍSTICA
A análise ontem divulgada pela Fiesp, juntamente com os dados estatísticos, não faz menção aos sintomas de recuperação, preferindo afirmar que “os dados não refletem qualquer modificação na tendência declinante”, e destacando que a queda se agravou em fevereiro.
Na verdade, conforme já apontado em análises anteriores publicadas pela “Folha”, as entidades empresariais têm insistido na tese de que a crise da indústria não pode ser avaliada a partir das estatísticas mensais, que revelam a evolução do setor mês a mês, devendo-se adotar as estatísticas anuais, que comparam a situação dos últimos doze meses com a situação dos doze meses anteriores. Esse critério, no entanto, impede que se avalie exatamente “o que está acontecendo no momento”, isto é, se houve melhora ou piora, de um mês para outro. Por quê? Como assim? Mesmo que os resultados de fevereiro retratem uma melhora, o índice dos últimos doze meses (isto é, de resultados “velhos”) continuará a acusar a queda em relação ao resultado dos doze meses anteriores, relativos, sobretudo a 1980, quando a economia atingiu seu “pico”, dos últimos anos.
Por esse critério, de levar em conta os “resultados velhos”, o nível de atividade da indústria efetivamente continuou a cair – como diz a Fiesp –, em fevereiro: o desempenho dos últimos doze meses (março de 1981 a fevereiro de 1982) acusou queda de 10,7% em relação aos doze meses anteriores (março de 1980 a fevereiro de 1981), contra uma queda de 9,8% de janeiro, e 8,8% até dezembro. Trata-se, contudo, de uma “ilusão estatística”, provocada pelos “resultados velhos”.