Em março e abril do ano passado, as manchetes dos jornais e TV noticiavam com estardalhaço a “enxurrada” de bilhões e bilhões de dólares que estavam entrando no Brasil. Hoje, o país inteiro sabe que eram capitais especulativos, atraídos por taxas de juro indecentes que iriam quebrar o Tesouro, o país e provocar a derrocada do real.
Lição apreendida? Não. Um ano depois, o governo FHC está repetindo exatamente a mesma estratégia suicida – e, incompreensivelmente, analistas e formadores de opinião criam um clima de euforia, de “estamos salvos”, no país. O mesmo cenário de um ano atrás: agora, o dólar cai, as Bolsas disparam, os juros começam a ser reduzidos... Mal, péssimo para a sociedade. Esse otimismo irrealista impede, mais uma vez, que se avalie a situação desastrosa da economia, suas causas reais e a correção de rumos necessária.
Vale dizer: os problemas vão crescendo como uma “bola de neve” e sua superação futura exigirá preços ainda mais altos da sociedade brasileira – ou o que restar dela... A falsa euforia com a “queda do dólar” chega a ser patética, quando se relembra a verdadeira situação dos “rombos” do Tesouro e mesmo o “rombo externo”, em dólares, que são os termômetros que realmente têm importância para acalmar os banqueiros e investidores estrangeiros e atrair (para aplicações verdadeiras, não especulativas) dólares.
Terra de dólares - Até a semana passada, a balança comercial (exportações menos importações) desmentia totalmente as previsões otimistas e acusava um déficit – confirmando a análise desta coluna de que a desvalorização do real não seria suficiente para aumentar as exportações e reduzir as importações na escala prevista pelos analistas. Por quê? Porque a economia brasileira hoje está dominada pelas multinacionais, que obedecem às matrizes e importam peças e componentes dos países ricos, suas sedes. Da mesma forma em que só exportam para onde as matrizes deixam (alguém acredita mesmo que a Ford vai ceder um mercado lá fora, na Europa ou na África, a sua filial do Brasil, permitindo que ela exporte e ocupe o lugar de carros que seriam produzidos nos EUA? Demitir trabalhadores norte-americanos para empregar operários no ABC paulista? Faz-me rir).
É esse o problema, profundo, que o governo precisa enfrentar. Atenção: o otimismo enganoso deve crescer em abril porque, com a nova safra agrícola, haverá avanços ilusórios nas exportações. Por que ilusório? Para aproveitar um dólar “caro”, que lhes dá mais reais, os agricultores estão apressando os embarques, isto é, exportando em três ou quatro meses o que seria vendido ao longo de um ano.
Mas o que importa, obviamente, é qual o volume total que existe para ser exportado no ano e os preços obtidos lá fora. Para exemplificar: no caso da soja, já se sabe que as exportações vão render no máximo (e olhe lá) US$ 4 bilhões, contra US$ 4,8 bilhões no ano passado – apesar de as vendas darem um salto nestes próximos dois meses, engordando temporariamente as estatísticas.
Petróleo - O produto já subiu de US$ 10 para a faixa de US$ 14 o barril, com a decisão, adotada pelos países produtores, de cortar a produção. O Brasil importa de 400 mil a 500 mil barris por dia. São mais uns US$ 50 milhões por mês ou US$ 600 milhões no ano.
Rombo - Explicações e previsões otimistas não eliminam a realidade que está aí: o “rombo” do setor público chega a níveis inacreditáveis, de 13%, 15%, 18% do PIB – ou três vezes o limite de 6%, que, tradicionalmente, banqueiros e FMI consideravam o menos perigoso. É ridículo argumentar que o FMI “está aceitando” esses números. A questão é outra: onde o governo brasileiro vai buscar dinheiro para pagar os juros sobre a dívida monstruosa que vai inchando com esse rombo monstruoso?
Falta explicar por que, mesmo diante desses dados e as perspectivas preocupantes que eles trazem, os “dólares estão voltando”. É simples. Exatamente como fez no ano passado, o governo ofereceu novas vantagens, como a redução de impostos (mais “rombo”) e o perdão do Imposto de Renda (mais “rombo”), para "investidores/especuladores" estrangeiros. O mais importante, porém: possibilitou aplicações por apenas três meses, praticamente (até final de junho). Isso significa ganhos fantásticos, muito maiores até do que se pensa. Como assim?
Os cálculos dos especialistas mostram que, se um investidor, um banco ou fundo de investimento tomar dinheiro emprestado lá fora, a 9% ou 12% de juros ao ano, pode lucrar 25% – um ganho sem igual em qualquer lugar do mundo. Na prática, o lucro pode ser ainda maior. Por quê? Nesses cálculos, supõe-se que o aplicador ficará com o dinheiro no Brasil durante um ano e que as taxas de juro, agora na faixa dos 42%, irão caindo, resultando em uma taxa média de 34% para os 12 meses. Trata-se, em resumo, de um lucro “médio”, para quem mantiver seu dinheiro no país por 12 meses. Mas, nestes primeiros meses, com as taxas mais altas, o lucro será muito maior – à custa do Tesouro, que está pagando aqueles juros malucos na venda de seus títulos.
No ano passado, o governo adotou a mesma estratégia para ganhar tempo. Acreditou que, com a privatização das telefônicas, programada para o começo do segundo semestre, levantaria bilhões para compensar parcialmente o rombo provocado pelos juros. Mas, apesar da enxurrada de dólares de março e abril, já em maio de 1998 o governo “quebrou”, não conseguia mais vender títulos. No “vale-tudo” para salvar as aparências e de olho na reeleição, o governo "torrou" as teles, de forma inacreditável: o preço anunciado por Sérgio Motta, de US$ 35 bilhões, foi reduzido para US$ 13 bilhões; a proibição da compra do controle por grupos estrangeiros foi suspensa; a exigência é comprar peças e componentes nacionais também. Hoje, o governo Fernando Henrique Cardoso está repetindo o mesmo descalabro. A sociedade não se deu conta ainda, mas a Petrobrás está sendo esquartejada, privatizada por baixo do pano, a preços vergonhosamente baixos. Vender as teles a preço de banana não salvou o real, devorado pelos juros. O Congresso vai permitir o novo e inútil ataque ao patrimônio público?