Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 12 de novembro de 1981
O Ministério da Fazenda pediu autorização ao Congresso para realizar maciças emissões de papel moeda, dinheiro, até o final do ano: praticamente o dobro do que a lei permite. Aprovada exatamente para impedir que a "guitarra" de imprimir dinheiro funcionasse a todo vapor, criando inflação e especulação, a lei autoriza emissões de até 10% sobre o total dos meios de pagamento do ano anterior, isto é, o total de papel moeda em poder do público mais os depósitos a vista nos bancos comerciais. O Banco Central, se o Congresso autorizar, deseja emitir 17,5% sobre aquele valor, ou cerca de 200 bilhõess de cruzeiros.
Quem se assustar com as conseqüências dessas emissões e desconfiar de que o governo na verdade não está controlando o crédito e a política monetária, está certo. Mas estará, também, cometendo o pecado da santa ingenuidade; essa aí, essas emissões, são apenas a "guitarrinha" do governo. A "guitarrona", a imensa guitarra que sufoca o País sem que se fale nela, é outra: o Governo, este ano, emitiu nove vezes aqueles 200 bilhões, isto é, emitiu 1,8 trilhão, de forma "disfarçada". Como? Em lugar de papel moeda, o governo emitiu 1,8 trilhão de cruzeiros em títulos, isto é, Letras do Tesouro Nacional e as Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional. Com isso, a dívida da União passou para a brincadeira de 2,4 trilhões de cruzeiros, contra 800 bilhões no final de 1980 – uma diferença de 1,6 trilhão. Um crescimento de 200%, em menos de doze meses, sobre o qual o Congresso não foi ouvido. Ingenuamente, ele deverá opinar sobre um aumento de 20% nos meios de pagamento. E não é consultado sobre um aumento de 200% na dívida interna – que sangra a União, o País, com juros e correção monetária, isto é, custa mais de 100% ao ano...
Pode-se esperar uma enxurrada de explicações "técnicas" do presidente do Banco Central, do ministro da Fazenda, do ministro do Planejamento, sobre esses números. A explicação correta, real, no entanto, é uma só: o famoso "aperto" no Crédito, a famosa austeridade monetária são apenas mais alguns dos mitos, contrários à verdade, que circularam no Brasil este ano – e em anos anteriores. Por trás de todo esse descontrole, alimentada por ele e realimentando-o está a especulação financeira que enriquece os aplicadores no mercado financeiro. Está o "jogo do dinheiro", das altas taxas de juros que a opinião pública também ingenuamente acredita ser privilégio de alguns "aventureiros", "especuladores”. Quando, na verdade, não são apenas "os bancos", "o mercado financeiro" e os "aventureiros" que lucram com esse jogo: é só analisar os balanços das grandes empresas (e não apenas multinacionais, mas também brasileiras) para verificar que também elas estão lucrando no ’’jogo de ganhar juros". Como também é verdade que essa participação das grandes empresas e grandes empresários na especulação financeira, pouco mencionada, é uma das razões pelas quais as entidades de classe empresariais não pressionam verdadeiramente o governo a combater a especulação e as altas taxas de juros: quando há muita grita das pequenas e médias empresas contra o custo do dinheiro, faz-se um "protesto", pra inglês ver – e depois tudo cai no silêncio de novo. Como ocorreu este ano.
Agora que o problema do desemprego e o temor à recessão preocupam menos a sociedade brasileira, ela deve – inclusive através do Congresso – voltar suas vistas imediatamente para o que vem ocorrendo no mercado financeiro, onde empresas e empresários acumulam fortunas – o que seria legítimo, em um regime capitalista – as custas da Nação, de todos.
Por ora, vale a pena demonstrar, apenas, que não há nenhum controle sobre o crédito, sobre a área monetária. Sobra dinheiro. Para a especulação financeira:
Open market – está negociando praticamente um trilhão (isto mesmo, um trilhão de cruzeiros) por dia, apenas em LTN e ORTN. Calcula-se que circule outro tanto, em letras de câmbio, certificados de depósito, debêntures.
Bolsas de Valores – batendo recordes sobre recordes, graças ao "mercado futuro" e o "mercado de opções", onde depósitos iguais a 10,15, 20% do valor da ação, permitem comprar milhões de ações.
Mercado paralelo – a própria Anbid, Associação Nacional dos Bancos de Investimentos, denunciou o "mercado paralelo", os empréstimos realizados "fora dos bancos", às empresas. É agiotagem, mas não nos moldes modestos que a opinião pública pensa. São grandes empresas emprestando a grandes empresas, grandes empresários emprestando a grandes empresários – com bancos, corretores, distribuidoras (ou seus gerentes e distribuidores) servindo de intermediários na transação, ganhando comissões sobre isso – mas não registrando a operação em sua contabilidade (o que é conveniente para os bancos, já que há um limite teórico para os empréstimos que lhes podem fazer).
Empréstimos "oficiais" – no final do ano passado, de outubro a dezembro, houve um verdadeiro "estouro" no valor dos empréstimos concedidos pelo mercado financeiro – e um estouro nas emissões de dinheiro que o governo pretendia fazer. Explicação: a economia vivia uma fase altamente especulativa, estava "superaquecida", as empresas buscavam crédito para formar grandes estoques de mercadorias, pensando em vendê-las com altos lucros este ano, já que se falava numa inflação de 150 a 200%, para 1981.
Começado o novo ano, no entanto, a economia entrou em queda. A produção industrial recuou verticalmente. As empresas precisaram de menos crédito para produzir, puderam até reduzir os seus saldos devedores, Já que começaram a "queimar" os estoques, isto é, transformá-los em dinheiro. Tudo somado, a lógica diz que o crédito em "excesso" dado no final de 1980 deveria ser reabsorvido em 1981, Já que as necessidades das empresas e da economia não só não cresceram – como diminuíram. No entanto, de janeiro a setembro, os bancos de investimento aumentaram seus empréstimos em 98%, os bancos comerciais, em 71%, os bancos de desenvolvimento em 86%.
É esse o célebre "controle" do crédito, no Brasil. Para onde foi o dinheiro, se não se precisava dele para produzir? È só ver o que está acontecendo no "open", nas Bolsas, no "paralelo". Na dívida pública. Nas emissões de papel moeda.
E esperar para ver o que vai acontecer, nestes próximos meses.