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  Alerta aos democratas

Jornal Diário Popular , segunda-feira 15 de maio de 2000


A recriação do SNI é um bom indício das intenções de FHC

Não há cidadão brasileiro capaz de acreditar que a TV Globo dá ponto sem nó. Há uns seis anos, o Jornal Nacional, diariamente, exibia cenas de um desastre rodoviário qualquer, em qualquer parte do País. Um caminhão caiu em uma ribanceira numa rodovia dos confins do Judas? Tome notícia. Um automóvel bateu em uma árvore nos quintos dos infernos? Tome notícia. Qual a importância real desses acidentes, para ganharem espaço no caríssimo horário nobre de um noticiário de dimensões nacionais?

Óbvio que eles não merecem o destaque. Mas a TV Globo sabia muito bem o que estava fazendo: a repetição de notícias sobre desastres nas rodovias fazia parte de uma campanha para fazer a cabeça, num autêntico processo de lavagem cerebral, dos telespectadores. Ou, mais claramente: subliminarmente, a TV Globo vendia a idéia, à sociedade, de que diante das más condições das rodovias, a única saída era privatizá-las. A campanha da privatização, sob a batuta do governo FHC, ganhava as ruas, e os brasileiros foram bombardeados nos anos seguintes com milhares e milhares de reportagens e notícias distorcidas de toda a grande imprensa para facilitar a “doação” das empresas a grupos multinacionais e, em menor escala, brasileiros.

Agora, todos os dias, o Jornal Nacional exibe pencas de reportagens sobre corrupção envolvendo, como se sabe, figurões das elites municipais, estaduais e nacionais. Isto é, as “elites” que a TV Globo sempre festejou. Até ACM... A súbita conversão da TV Globo é altamente intrigante. Paira no ar a sensação de que algo obscuro está ocorrendo nos bastidores do poder, no País. Principalmente porque, coincidentemente, o presidente Fernando Henrique Cardoso, em várias aparições públicas, vem repetindo que “a sociedade brasileira está cansada de corrupção”.

Críticos ridicularizam essas declarações, lembrando que o presidente da República e seus amigos, como detentores do poder, podem ser apontados como responsáveis pela generalização da corrupção no País. O raciocínio é lógico. Mas, por isso mesmo, ele abre caminho para outras indagações. Não é intrigante que o presidente da República se apresente aos olhos da população como um homem público indignado com a “corrupção dos outros”? Ele não estará tentando construir a imagem de “salvador impoluto”, em meio a um “mar de lama”, um Congresso sem brios, empresários estelionatários, juízes envolvidos com fraudes, policiais mergulhados no narcotráfico?

Em resumo: ironicamente, tudo indica que as revelações trazidas pelo combate à corrupção, iniciado pelo Ministério Público e uma minoria dos Legislativos, estão sendo capitalizadas pelo presidente FHC e TV Globo, que se apropriaram de um tema que nunca lhes interessou. Experiências deixadas pela história mostram que é hora de os democratas ficarem alertas, ou agirem contra o possível uso que o presidente da República tente fazer desse quadro de desmoralização coletiva - que está aumentando a descrença da sociedade em relação à democracia. A recriação do SNI é um bom indício das intenções de FHC.



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