Revista da Fenae , abril de 1998
Roraima, Nordeste, aposentados. Inércia contra o incêndio, apatia diante da seca e da fome, xingamento contra os "vagabundos". Desemprego recorde, aproximando-se dos 20% em São Paulo. E sempre as mesmas explicações otimistas, o autêntico desdém diante dos problemas que vão levando a sociedade a crescente inquietação. Não deu outra. Demorou, mas o fascínio da sociedade brasileira com a "queda da inflação" se esgotou, diante do peso de tantas tragédias e comportamento incompreensível da equipe governamental e seu comandante. Pesquisas insuspeitas, da Vox Populi e do Ibope, revelaram quedas marcantes nas intenções de voto para FHC - e a possibilidade de um segundo turbo. Reeleição ameaçada. E a tempestade mal começou... Com seu otimismo alienado, FHC e seus aliados repetem a tese de "que o pior já passou", e que, de maio a outubro, há esplêndidos quatro meses para apagar, da memória do eleitorado, todos aqueles erros e omissões. Mais uma vez, triste engano. A tempestade mal começou. Não há como evitar, a esta altura, o agravamento da "crise brasileira", intensificando-se o descontentamento popular e a inquietação social. Não basta, como pareciam acreditar os governistas nos últimos dias de maio, "reduzir os juros" para reverter a tendência sombria. A tempestade mal começou.
Em abril, as vendas de automóveis despencaram, outra vez, nada menos de 25% sobre igual mês de 1997. Nos primeiros dias de maio, o comércio sofreu nova frustração com o Dia das Mães. O nível de inadimplência do consumidor continuou a bater recordes, com 440 mil carnês em atraso em São Paulo (em um único mês), números estratosféricos de cheques sem fundos em todo o Brasil (crescimento de nada menos de 13 vezes, ou 13.000%, com 27 cheques devolvidos, contra dois em cada mil há dois anos...). Os resultados da indústria e comércio em abril/maio não poderiam ser mais alarmantes - e claramente definidores do aprofundamento da recessão que atinge a economia brasileira. Por quê? Tradicionalmente, trata-se de dois meses em que as vendas e a economia ganham vapor, impulsionadas pelo Dia das Mães (maior volume de faturamento, depois do Natal) e - atenção - pelo dinheiro que costuma irrigar o interior, com o auge da comercialização das safras agrícolas. O aquecimento das vendas no interior, em abril/maio, com reflexos sobre toda a economia, era a única esperança que se podia ter de "alguma reativação", a esta altura, pois a renda agrícola poderia compensar a perda do poder aquisitivo da população dos grandes centros, atingida em cheio pelo desemprego. Perda de renda, num círculo vicioso, resultante do congelamento dos vencimentos do funcionalismo, reajuste mesquinho do salário mínimo, reajustes salariais ridículos proporcionados pelo próprio desemprego em meio à retração da indústria, causada pelas importações - que ainda em maio continuavam a subir.
Por que o consumo não cresceu significativamente no interior? Porque a reunião dos agricultores não vem crescendo. Não, por causa do El Niño. Mas por causa do verdadeiro "massacre" que o governo FHC vem impondo aos produtores agrícolas nestes quatro anos. O governo FHC deixou de comprar as colheitas dos produtores, como era previsto em lei, para evitar que eles tivessem prejuízos em anos de produção farta ou manobras de especuladores. Por isso, o produtor de trigo não consegue vender sua safra (inclusive do ano passado), o algodão não tem preço - e até o célebre frango enfrenta preços aviltados. Falta feijão? Houve recuo no plantio, devido aos preços baixos de 1997. Falta arroz? Houve corte no crédito do BB aos rizicultores gaúchos, em 1996. Só a soja vai bem, obrigado (mas, em maio, seus preços externos também estavam ameaçados por previsões de superprodução). A queda na renda agrícola agrava a recessão. E a falta de estoques - porque o governo não comprou mais as colheitas - faz o preço do feijão passar dos R$ 3,00 o quilo, e o arroz ter suas cotações mais altas em 10 anos. Recessão, de um lado. De outro, pode-se avaliar o descontentamento popular que vem por aí, com os preços cada vez mais exorbitantes para esses dois alimentos - ou, pior ainda, o "sumiço" desses produtos. Inevitável. Não, por "especulação". Mas porque não há estoques, mesmo. Obra da equipe FHC.