quarta-feira 13 de novembro de 1991
Para começar, vale a pena dar uma olhada no que está acontecendo com a dívida externa. Engraçado: ninguém falou nisso, nem ministros nem oposições, mas o Brasil vai pagar uns 4,0 bilhões de dólares a menos aos credores internacionais, por ano, na cobrança de juros sobre a dívida externa. Por quê? Acontece que a libor, a taxa de juros cobrada nos empréstimos externos, está nos mais baixos níveis dos últimos 15 anos: em torno de 5%. Há um ano, o que representaria algo como 11,2 bilhões de dólares em juros, sobre 140 bilhões de dólares de dívidas. Com a queda para 5%, a carga de juros recua para 7,0 bilhões de dólares anuais ou 4,2 bilhões de dólares (simplificadamente) a menos. Ninguém fala nisso. O ministro devia falar, porque isso ajudaria, por exemplo, a combater a especulação com o dólar: mesmo que o saldo da balança comercial esteja em declínio, o fato é que os pagamentos a serem feitos aos banqueiros, sob a forma de juros, também serão substancialmente menores do que se previa. As reservas em dólar não serão, forçosamente, destruídas. Se o ministro não fala, as chamadas oposições também silenciam. País engraçado este, de imprensa e economistas engraçados. Até há um ano, cada vez que a libor subia 0,25% ou 0,5%, havia um frisson nas Redações e nas chamadas oposições progressistas. Todo mundo sacava a sua maquininha de calcular, fazia as continhas, e imediatamente proclamava: com mais 0,25% da libor, o Brasil vai ter que pagar mais, digamos, 350 milhões de dólares (ou 0,25% de 140 bilhões de dólares) aos banqueiros. É o fim do mundo!!! Estamos perdidos!!! O caos vem aí!!! Dizia-se. Agora, há uma queda de 3 pontos percentuais, e ninguém se lembra da maquininha? País engraçado, este, onde há um santo horror pela boa notícia... Pena que as oposições não prestem atenção a esse dado. Não, para festejá-lo, apenas. Mas para entender que, se os juros estão baixos, é porque os bancos estão com folga de dinheiro. E, se eles estão com folga de dinheiro, os banqueiros internacionais têm interesse em fazer acordo com o Brasil, para restabelecer o ritmo de negócios. Logo, a oposição poderia ajudar o governo a renegociar a dívida em condições mais decentes, com menos exigências, junto aos banqueiros e ao FMI. Há outra ajuda, está dentro do Brasil, que as oposições poderiam dar ao governo, na luta contra poderosos grupos de pressão que sempre ganharam rios de dinheiro com a inflação e o mercado financeiro. Como quem não quer nada, lideranças empresariais, banqueiros, ex-ministros começaram a pregar o retrocesso, a volta da correção monetária, da indexação oficial na economia brasileira. Isso é um contra-senso, se não for mesmo uma questão de falta, digamos assim, de escrúpulos. A História está aí para mostrar que, durante décadas, a existência de um índice oficial de correção monetária impediu a queda da inflação, pois tudo passou a ser reajustado, no mínimo com base nesse índice. A História mostra também que na cavalar recessão promovida pelo ex-ministro Delfim Neto, no começo dos anos 80, os preços não recuaram (a inflação não caiu) porque eles continuaram a ser reajustados com base na OTN (o governo autorizou isso...). O Brasil teve uma recessão brutal, um desemprego brutal, e a inflação continuou em alta. A lição vale para este momento. A economia está em plena recessão, o desemprego avança – e o único saldo positivo (???) que se pode esperar desse período é a queda da inflação. Que não ocorrerá, se a indexação voltar. O ministro Marcílio já se pronunciou contra. Mas o lobby está em cena, e o assunto vai dominar o noticiário daqui para a frente, pode-se apostar, com a mesma irresponsabilidade com que se estimulou a corrida ao dólar e ao ouro há poucos dias. O fim da indexação oficial foi o fato econômico mais importante das últimas décadas. Retroceder, no caso, é interesse de espertalhões. Outro assunto que merece uma olhadinha das oposições, sempre tão fascinadas com governadores de Estado, enquanto só enxergam bruxas no Planalto Central. Os governos de Estado, Prefeituras e órgãos estatais devem nada menos de 816 bilhões de cruzeiros, quase um trilhão de cruzeiros, à Previdência, ao INSS. Uma simples portaria do ministro Magri, no último dia 31, premiou os caloteiros. Estados (136 bilhões), Prefeituras (380 bilhões) e outros devedores oficiais ganharam nada menos de 240 meses (isso mesmo, 20 anos), para pagar os débitos, em prestações. Só para avaliar ainda melhor a aberração: há poucos dias, ministros diziam que não dispunham de 1,0 bilhão para pagar o 13º aos aposentados. Agora, parcelam uma dívida de 1,0 trilhão... Cadê o Congresso? Cadê a OAB? Cadê a CUT? Cadê a CGT? O Brasil precisa de leis que impeçam ministros de perdoarem impostos, parcelarem dívidas, através de simples portarias. Aí, o dinheiro do povo vai aparecer. Sem necessidade de aumentar impostos.