Revista Visão , quarta-feira 22 de abril de 1992
O governo federal despejou mesmo trilhões de cruzeiros no interior, para plantio dessa safra que está sendo colhida? Despejou. Isso significa que milhões de agricultores vão obter uma excelente renda este ano, com melhor nível de vida para pequenos produtores, sitiantes, arrendatários, minifundiários? Nada disso. Ao contrário. Basta abrir os jornais para ver notícias desastrosas: os pequenos agricultores estão sendo forçados a vender suas colheitas a preços aviltados, abaixo dos custos de produção, isto é, com prejuízos. Em resumo: o Brasil continua a fazer uma “reforma agrária às avessas”, com a política de crédito rural arruinando os pequenos produtores, forçando-os a vender suas terras para os grandes fazendeiros “progressistas”, seus vizinhos. “Progressistas”, mesmo, ou “privilegiados”? Privilegiados. Este ano, na época do plantio, o governo destinou nada menos de US$ 3,2 bilhões, ou Cr$ 7 trilhões para os empréstimos agrícolas. Quem é que tem acesso realmente e esses empréstimos? Um estudo foi feito há muito tempo, para a avaliar para onde ia o crédito rural. Os resultados foram estarrecedores, se é que existem ainda coisas capazes de estarrecer, no chamado “capitalismo” brasileiro. Do total de 12 milhões de produtores rurais existentes na época, apenas 10%, ou 1,2 milhão, conseguiam satisfazer as exigências para obter empréstimos (o miniprodutor, o pequeno sitiante, o arrendatário não têm garantias para oferecer). Dessa parcela de 1,2 milhão de produtores, 3% deles, ou 36 mil fazendeiros, ficavam com praticamente a metade de todos os empréstimos (mais precisamente, 43%)...
Em termos de hoje, isso significaria que: o governo emprestou algo como Cr$ 7 trilhões para o plantio da nova safra; dessa dinheirama toda, cerca de Cr$ 3 trilhões a Cr$ 3,5 trilhões teriam ido parar nas mãos de apenas 36 mil produtores, de um total de 12 milhões... A sociedade brasileira precisa entender que a maior mentira que é contada para a opinião pública, no Brasil, é a célebre “falta de recursos”, “falta de dinheiro”, para o que quer que seja. No Brasil não faltam recursos, não falta dinheiro coisíssima nenhuma. O que existe no Brasil é uma vergonhosa, anticapitalista canalização de trilhões de cruzeiros sempre para os mesmos bolsos e cofres. Sempre para uma minoria, sempre para grupos privilegiados. É por isso que o País não consegue resolver seus problemas, não consegue criar os empregos necessários, não consegue tirar milhões de brasileiros da miséria: em todas as áreas, a política econômica tem só multiplicado as aberrações. Não é só a corrupção, não. Mais do que ela, é a própria política econômica que cria grandes fortunas, cria pretensos impérios empresariais, à custa da miséria e da quebradeira de milhões e milhões de brasileiros.
No caso da safra agrícola deste ano, a política de privilegiar ainda mais os privilegiados também chegou ao nível da desfaçatez – sempre em meio aos elogios das lideranças rurais e de solertes veículos de comunicação. Houve vastos elogios aos empréstimos de US$ 3,2 bilhões. E, na hora de vender a colheita, por volta de março último, o governo tomou outra decisão que foi apresentada como novo maná para milhões de agricultores: quem tomou empréstimos não precisaria pagá-los neste próximos meses. O governo, generosamente, “dependurou” os débitos de trilhões, para que os produtores (tomadores de empréstimos, repita-se) possam segurar suas colheitas, vendê-las aos poucos, a preços que lhes garantam lucros. Foguetório geral. Só que houve silêncio sobre um pequeno detalhe dessa história toda – e é esse detalhe que explica a situação calamitosa de milhões de pequenos produtores. O generoso governo modernoso não quis receber os Cr$ 7 trilhões. Mas, em compensação, cortou drasticamente as verbas que destina anualmente à compra de colheitas, uma tarefa a que é obrigado por lei e que se destina exatamente a proteger milhões de agricultores, garantindo-lhes preços justos negados pelos grandes compradores (não apenas “atravessadores”, mas atacadistas e indústrias). Candidamente, o governo anunciou que liberaria apenas Cr$ 300 bilhões pra a compra de safras de milhões de pequenos produtores, enquanto pendurava a fatura dos Cr$ 7 trilhões de uns poucos milhares de privilegiados.
O resultado dessa esdrúxula decisão: milhões de pequenos produtores, que idiotamente fizeram das tripas coração para plantar sem empréstimo, ficaram sem garantia de preços. Precisando de dinheiro, passaram a vender suas colheitas com prejuízos. Impossível prever que isso aconteceria? Ora, o Brasil é assim há décadas. O que aumentou, este ano, foi a dose de privilégio para os “modernosos”. Em resumo, não basta combater a corrupção. A sociedade precisa entender que, muitas vezes, a política econômica “legal” é ainda mais vergonhosa do que ela. Concentra a renda, cria fortunas, cria impérios, faz “reformas agrárias às avessas”, expulsa famílias do campo, cria novos sem-terra, novas favelas na cidades, novos “trombadinhas”, mais miséria, mais violência, mais seqüestros. Tudo, em meio ao foguetório. É preciso modernizar, de verdade, a política econômica.