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  Debate entre economistas ajuda a enterrar 3 mitos

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 29 de julho de 1982


No curto espaço de tempo de sessenta minutos, nada menos de três importantes mitos que vêm infestando o debate econômico nos últimos meses, e impedindo a correta avaliação dos erros da política econômica do Pais, foram jogados por terra no programa "Critica e Autocrítica" apresentado, na noite de anteontem. A impossibilidade de renegociar a divida externa, o déficit das empresas estatais e a necessidade de achatar salários para superar a crise atual foram os sofismas arrasados por três professores de economia, Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Beluzzo e João Sayad, ao contraporem Informações à posição “oficialista” do economista e igualmente professor de economia Adroaldo Moura da Silva.

De quebra, o programa ofereceu ainda uma visão clara da política econômica alternativa proposta pelos economistas de oposição, com Afaria da Conceição Tavares à frente, que rejeita a necessidade de promover uma nova recessão, no Pais, para resolver os problemas da inflação e da dívida externa. Se o presidente João Batista Figueiredo realmente acredita que “só há uma teoria econômica", como afirmou recentemente, e é sincero nas queixas de que "critica-se muito, mas ninguém aponta saldas", o debate transmitido pela TV Bandeirantes e produzido pela Gazeta Mercantil foi uma excelente contribuição para a revisão dos pontos de vista presidenciais—e de áreas empresariais que fecham os olhos aos equívocos da política econômica, atribuindo os problemas do Pais à crise mundial. Por sua importância, o programa poderia ser reprisado, para esclarecimento da opinião pública e das autoridades.

Os Mitos

Coube ao professor Luiz Gonzaga Beluzo desmontar o primeiro dos mitos, o déficit das estatais, responsabilizado pela Inflação — e convenientemente espalhado pela assessoria do ministro Delfim Neto, para desviar a atenção da opinião pública, no momento em que eram mais intensas as criticas provocadas pela Inflação de Junho. Beluzo, Invocando inclusive o testemunho do ex-ministro Simonsen, pertencente à ala "antiestatais", demonstrou não haver "estouro" algum: o que houve, disse, é que os seus orçamentos foram feitos no começo do ano, prevendo-se uma Inflação de 75/80%. Como a inflação Já se aproxima do 100%, houve aumento nas receitas de algumas estatais — e, consequentemente, aumento nos seus investimentos, como aplicação da receita extra. Não é dai que vem a inflação.

Mais importante para o esclarecimento da sociedade brasileira, ainda, — neste momento em que se fala em mudar a política salarial depois de novembro — foi a esmagadora réplica feita pela mes- tra Maria da Conceição Tavares à afirmação — infundada, como se ficou sabendo então — do professor Adroaldo Moura da Silva, em relação a necessidade de achatar salários para promover o "reajuste da economia brasileira". Autor de um trabalho datado de 1981 e em que essa proposta já era apresentada, para agrado da Seplan, Moura da Silva repetiu uma análise freqüentemente feita por ministros e líderes empresariais, segundo a qual o Japão superou a crise do "choque do petróleo" também porque seus trabalhadores aceitaram a redução de seus salários. Maria da Conceição Tavares fulminou o mito: "Acompanho todos os dados internacionais, dispondo de todos os dados internacionais. Isso daí é mentira. No primeiro "choque do petróleo", em 1973, o Japão também foi atingido pela recessão mundial, e os salários declinaram. Mas depois disso o Japão adotou uma política de longo prazo para adaptar sua economia, uma política anti-recessiva, com expansão do emprego e dos salários. Porque, lá, o governo nâo é conservador, dominado pelos conservadores". Adroaldo não retrucou.

A ALTERNATIVA

Maria da Conceição, Beluzzo e Sayad afirmam que a recessão agravaria os problemas brasileiros. Mas, e a divida externa, como fica? Não é preciso reduzir seu ritmo de crescimento? Na sua análise, a recessão só agravaria o problema cambial; o Brasil precisa de projetos nas áreas de energia, transportes, alimentação e saúde, para conseguir financiamentos de longo prazo lá fora, e continuar "rolando" a divida. De qualquer forma, é consenso dos três — Adroaldo discorda, defendendo a posição oficial — que a divida Já deveria ter sido renegociada (conforme eles vêm propondo desde 1979), para que a política econômica nío continue a ser dominada pelos problemas externos.

O Brasil não conseguirá fugir à renegociação em 1983, afirmam — e por isso deveria tomar a iniciativa de fazê-lo já, quando ainda tem condições de barganha com os banqueiros internacionais. "Vamos fazer recessão, provocar crises e convulsões sociais como na Polônia para só aí renegociar? Náo é verdade que os banqueiros não aceitariam. A Costa Rica, um país sem a importância estratégica do Brasil, pediu a renegociação e os banqueiros concederam em termos que evitaram a necessidade de uma recessão", inclusive por motivos políticos. A Costa Rica é uma democracia, e aos banqueiros não interessa crises políticas — que gostariam de evitar também no Brasil. Foi o governo brasileiro que sempre rejeitou a hipótese da renegociação.

Conceição Tavares, Beluzzo e Sayad não descartam a possibilidade de o Brasil unir-se a países como a Argentina, México e Chile para uma renegociação conjunta com os banqueiros.



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