[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Lucro dos bancos mostra o absurdo “jogo dos juros”

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 28 de fevereiro de 1982


No começo de 1981, o Tesouro Nacional, isto é, o governo, tinha uma dívida interna de 800 bilhões de cruzeiros. No final do ano, a dívida praticamente triplicara, para 2,4 trilhões de cruzeiros (com “t”, mesmo), representados por Letras do Tesouro Nacional e Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional - espécie de “promissórias” que o governo vende para arrecadar recursos. Do aumento de 1,6 trilhão de cruzeiros na dívida do governo, apenas uns 500 bilhões em "promissórias" foram vendidos para levantar "dinheiro vivo", para o governo investir, realizar obras, programas, serviços no interesse da economia e do País, O restante 1,1 trilhão de cruzeiros, portanto, em "promissórias" colocadas no mercado, se destinou apenas a conseguir dinheiro para pagar juros e correção monetária - aos donos das próprias "promissórias" que representou a dívida. Isto significa que o dinheiro que falta ao governo para implantar programas de criação de emprego, ou socorrer o Nordeste, ou pagar sua dívida para com o INPS, ou mesmo para reduzir os impostos sobre a renda dos trabalhadores e da classe média, é devorado pelos juros e correção monetária da dívida interna. Uma conseqüência - e há muitas outras – da especulação financeira que os ministros da área econômica vêm estimulando no Brasil, desde o início dos anos 70, em beneficio dos bancos e grandes aplicadores que participam do chamado “jogo dos juros”, no “open”. No momento em que os bancos anunciam aumentos de até 1.200% em seus lucros em 1981, surgem algumas pistas para os empresários e a opinião pública em geral tentarem entender os malefícios da especulação financeira. Aviso: a situação é tão absurda que as respostas só poderiam ser dadas pelos ministros da área econômica.

1. O papel do “open”

Em entrevistas ao jornal Gazeta Mercantil, que trouxe detalhada análise dos balanços dos bancos, os banqueiros confirmam que "as rendas e lucros oriundos de aplicações em títulos públicos e privados (open market) deram uma contribuição expressiva para os resultados do setor..."

Perguntas aos ministros

Os resultados dos balanços mostram, realmente, um aumento de 200% na receita operacional de bancos, e um aumento de 1.000% no lucro desses bancos. Quer dizer: é como se uma empresa aumentasse seu faturamento, nas vendas, em 200%, e conseguisse aumentar o lucro em 1.000%, vale dizer, aumentar sua margem de lucro cinco vezes. Pergunta-se então aos ministros: se esses lucros foram conseguidos no "open", isto significa que os títulos do governo, comprados no "open", pagaram juros e correção monetária elevadíssimos, e o dinheiro tomado emprestado pelos bancos, no próprio "open", teve um custo baratíssimo, não é mesmo? Acontece que quem injeta dinheiro no "open", e "emite" dinheiro para isso, para baixar as taxas sobre o dinheiro que os bancos tomam "emprestado", é o governo, através do Banco Central. Quer dizer que o Banco Central emitiu, perdeu o controle do crédito, prejudicando a luta contra a inflação, o País todo, para baratear o dinheiro no "open", e aumentar os lucros dos bancos? E quer dizer, ainda, que o Banco Central aumentou os rendimentos pagos aos compradores de LTN "o mercado financeiro" -, aumentando a dívida interna do governo, mesmo sem necessidade, pois os lucros dos compradores já era excelente?

2. A sobra de dinheiro

Os banqueiros dizem que houve grandes lucros no "open", "com a aplicação, pelos bancos, das reservas que, dada a limitação à expansão do crédito, não podiam ser emprestadas".

Pergunta aos ministros

Pois é, senhores ministros, os banqueiros dizem que havia "sobra" de dinheiro nos bancos. Ora, os senhores afirmam que o governo precisou emitir, em 1981, para aumentar o crédito agrícola, o crédito às exportações, etc. Se havia "sobra" de dinheiro nos bancos, não bastaria baixar instruções determinando aos bancos que destinassem os recursos a essas áreas, em vez do próprio governo emitir? Mesmo porque, os senhores ministros sabem, um dos motivos para o Banco Central vender mais LTN e ORTN, aumentado a dívida do governo e a sangria dos juros e a correção monetária, é exatamente recolher a "sobra de dinheiro" no "open", no mercado financeiro - porque, diz a teoria, esse excesso de dinheiro provoca inflação. Não dá para entender, senhores ministros? Pois é o que nós também achamos: como entender que sobre dinheiro nos bancos, e os bancos digam que não têm dinheiro para certas operações, e o governo então emita para financiar essas operações e aí sobre dinheiro nos bancos, aí o governo aumente sua dívida para recolher o dinheiro, e aí, e aí, e aí? Não é isso a tal "ciranda financeira" de que fala mestra Maria da Conceição Tavares? Não será essa a "corrente da felicidade do mercado", e a "corrente da infelicidade" nacional, que alimenta os déficits do Tesouro,a inflação, a concentração da renda?

3. Taxas de juros

Os bancos afirmaram durante o ano inteiro que não poderiam reduzir os juros porque apenas uma pequena parte do dinheiro dos depósitos pode ser aplicada livremente, a juros também livres, com o restante sendo obrigatoriamente destinado a pequenas empresas, agricultores, etc; a taxas abaixo da inflação. Se reduzissem os juros, não teriam lucros.

Pergunta aos ministros

E então? Não dá para reduzir os juros internos?

4. Imposto sobre os lucros

O ministro do Planejamento, Delfim Neto, em meio a grande estardalhaço que enganou muita gente boa, aumentou em 5% o Imposto de Renda sobre os lucros dos bancos. Agora, sabe-se que o lucro líquido dos bancos privados cresceu 427%, de 23 para 124 bilhões de cruzeiros em 1981. Quer dizer, o ministro Delfim Neto impôs um terrível sacrifício, de 6,2 bilhões (com b) de cruzeiros aos banqueiros. E deu a eles um lucro extra de 100 bilhões de cruzeiros. O Tesouro? Lucrou esse 6,0 bilhões (com b), em Imposto de Renda. E aumentou sua dívida em 1,8 trilhão (com t).



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil