Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 18 de agosto de 1983
O debate em torno da “moratória” cresceu como uma avalanche nos últimos dias, acusando, para quem se dispuser a juntar todas as peças do xadrez, algumas significativas trocas de posição por parte de grupos políticos, sejam os que tentam empalmar o poder, dentro do “sistema”, seja na área de oposição:
PMDB e “economistas de oposição” – após reuniões de cúpula em São Paulo, o partido e os economistas a ele ligados abandonaram a tese de que o Brasil deveria partir para o rompimento drástico com o FMI, no momento. Diante do temor de que o agravamento da crise econômica levasse ao “fechamento político”, decidiu-se apoiar a renegociação da dívida, para dilatação dos prazos de pagamento, através de conversações com governos de países ricos, isto é, a nível político, enfraquecendo-se o poder de pressão dos banqueiros internacionais e do FMI. Como contrapartida a essa posição moderada, que pressupõe uma dose de colaboração com o governo, o PMDB e seus economistas proporão um “programa alternativo de desenvolvimento”, subentendendo-se que a reforma ministerial também é imprescindível, para a mudança de rumos.
Empresários paulistas – defendem também as negociações a nível político, de governo a governo, e a reforma ministerial. Justificativa para sua posição: temem que a política recessiva atribuída ao FMI provoque a “quebradeira” da indústria paulista, e a desnacionalização.
O governo: o ministro Ernane Galvèas anunciou anteontem que o Brasil vai pedir (isto é, negociar) uma “moratória parcial”, vale dizer, deseja que as prestações da dívida que venceriam em 1984, cerca de US$ 8 bilhões, somente sejam pagas em oito anos, com a primeira prestação paga somente dentro de três anos. Nessa proposta, o Brasil continuaria tendo que pagar os juros que vencem em 84, e que sobem a mais de US$ 10 bilhões, ou seja, mais que as próprias prestações. Mesmo assim, a “moratória parcial” para as prestações seria um grande avanço: o Brasil já teria um quadro cambial definido para 84, sem necessidade de permanentes conversações com os credores, como vem ocorrendo nesse momento.
A proposta de Aureliano – e para qual algumas alas do governo já se encaminham: concluir as negociações para a “moratória parcial”, que o governo já vem desenvolvendo. E, a seguir, iniciar as conversações a nível político de governo para governo, para a renegociação da dívida total.
Como se vê, o País aparentemente se encaminha para um consenso, em que um novo acordo com o FMI e banqueiros é encarado como uma necessidade para clarear os horizontes a curto prazo, partindo-se depois para o acordo amplo, que, possível ou não, demandaria meses de negociação.
Tende-se, aparentemente, a um consenso quanto aos objetivos. As discordâncias persistirão, no entanto, quanto ao “preço a pagar” para obter apoio dos países ricos, nas negociações de governo a governo. Teme-se que os “internacionalistas”, a ala do “sistema” favorável a que o Brasil abra sua economia – ainda mais – ao capital estrangeiro, acabe por assumir o papel de porta-voz nas negociações de governo a governo, fazendo concessões que nem sempre coincidiram com os interesses do País.