Jornal Folha de S.Paulo , domingo 15 de agosto de 1982
Como a economia não cresceu tanto quanto a dívida, o Brasil não conseguiu preencher a segunda condição para evitar que a “bola de neve” fosse engordando. Isto é, aumentar as exportações num ritmo suficiente para pagar os juros e as amortizações (isto é, o “serviço”) da dívida.
Em 1973 (ver gráficos), os juros e amortizações consumiam US$ 1,3 bilhão por ano – ou o equivalente a pouco mais da metade dos dólares obtidos com as exportações brasilienses (exatamente, 55%). Em 1981, a dramática situação criada pela dívida externa brasileira era retratada nestes dados: nada menos de 80% (mais exatamente, 77,3%) de todos os dólares recebidos pelo Brasil, através de suas exportações, eram devorados pelo pagamento dos juros e prestações da dívida.
Em 1982, a situação é ainda pior, já que as exportações caíram 10% até julho, em relação a 1981, e o volume de juros e prestações é praticamente o mesmo – sem falar na dívida de curto prazo.
Qual o significado desses dados? É simples: o Brasil exportou US$ 23,3 bilhões em 1981, mas gastou no mínimo US$ 18 bilhões somente para o pagamento das prestações e juros da dívida. Restariam assim apenas US$ 5,3 bilhões para pagar todas as importações, em torno de US$ 22,1 bilhões, deixando um rombo de US$ 17 bilhões, nas contas do País com o Exterior. Esse rombo é ainda maior, porque o Brasil tem outros compromissos, como dividendos, fretes, royalties, etc. e que somam cerca de US$ 4,5 bilhões por ano. O total de compromissos externos não-atendidos pela receita de exportações, assim, soma a US$ 25,6 bilhões por ano, nessas contas – dos quais devem ser deduzidos US$ 1,5 bilhão em investimentos, restando cerca de US$ 24 bilhões, a cobrir.
A DEPENDÊNCIA
Para não ficar insolvente, o Brasil vem precisando captar, portanto, uns US$ 25 bilhões por ano, em novos empréstimos no mercado internacional.
Os técnicos do governo nunca falam nessas cifras, citando sempre valores, em torno de US$ 17 bilhões. Qual o segredo? É simples: do total de US$ 25 bilhões “descobertos”, eles descontam os US$ 8 bilhões necessários ao pagamento das prestações da dívida, e cada ano, alegando que essas prestações serão “roladas”.
Mas isto significa, apenas, que serão precisos novos empréstimos, para substituir os velhos. Assim, no final das contas, o Brasil precisa realmente conseguir que os banqueiros, governos, órgãos internacionais, lhe arrumem uns US$ 25 bilhões por ano, a esta altura – por que o “serviço da dívida” (juros e amortização) está consumindo quase 80% do valor das exportações.
Esse quadro mostra que “os empréstimos externos produziram uma economia caracterizada por uma aparentemente irredutível dependência do capital externo. Os empréstimos externos aumentaram a dependência e o grau a vulnerabilidade da economia brasileira a mudanças nas condições externas”. Uma vulnerabilidade que chega a um ponto perigoso no momento, diante da retratação da economia mundial e conseqüente queda nas exportações e investimentos externos, que representariam a entrada de dólares no País diante do temor que essa própria situação está semeando entre os banqueiros internacionais.
Infelizmente para o Brasil, a dívida externa é hoje representada quase totalmente por empréstimos do mercado de euromoeda, concedidos pelos banqueiros internacionais. Em 1964, apenas 4,5% dos débitos eram para os banqueiros, cabendo os 95,5% restantes a organismos como o Banco Mundial, Eximbank, ou governos. Em 1973, o Brasil já concentrara 62,5% dos seus empréstimos no mercado do eurodólar; no último ano, coube aos banqueiros nada menos de 73,2%, ou três quartos da dívida externa brasileira de médio e longo prazo.
Assim, “caso os bancos privados passem a relutar em financiar o déficit brasileiro em conta-corrente. Isso provocaria um choque na economia e a conseqüência seria uma recessão violenta”.
É essa ameaça que os defensores da renegociação da dívida querem afastar.