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  A economia, à espera do milagre

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 23 de junho de 1996


A leve recuperação nas vendas da indústria em maio provocou nova onda de otimismo da equipe FHC, prontamente repetida pelas caixas de ressonância em que se transformaram algumas lideranças empresariais e formadores de opinião.

Volta-se a apontar melhoras (falsas) em todas as áreas, como endividamento do consumidor, ritmo de desemprego, quebra de empresas e avanço das exportações, para assegurar que "o segundo semestre será melhor".

Esse otimismo fabricado tenta ignorar uma realidade óbvia: a recessão, a esta altura, é provocada basicamente pela perda do poder aquisitivo do consumidor, classe média e povão, em conseqüência da política deliberada de congelar ou achatar salários, aposentadorias, vencimentos do funcionalismo federal, estadual e municipal.

Só quem acredita em milagre pode prever aumento de vendas e recuperação da economia quando a população está cada vez mais contando tostões.

Longe de entusiasmar, a leve reação das vendas da indústria em maio é um motivo de preocupação.

Segundo esta coluna já apontou, os meses de abril/maio traziam a esperança de uma "virada" na economia, por tratar-se do período em que as safras agrícolas são vendidas, colocando alguns bilhões de reais nas mãos de milhões de famílias do interior.

Além das safras, a preços excelentes em 1966 devido à alta mundial de cotações, previa-se a influência do Dia das Mães _e de frio intenso, prematuro, capaz de puxar as vendas de roupas e aparelhos elétricos. Nem esse conjunto de fatores mudou o quadro recessivo, por mais que se tente tapar o sol com a peneira.

Sem poder

Salários, aposentadorias, vencimentos estão sofrendo novos "rombos" a partir deste mês de junho, com novo abalo no poder aquisitivo das famílias. Sobem tarifas de ônibus e metrô (25%), seguro-saúde (23,6%) e cesta básica. Como já tinham subido luz e telefone.

Sem salário

Pesquisa junto a grandes empresas mostrou que, em abril, nenhuma delas deu reajuste antecipado de salário. Em maio, melhora insignificante: apenas 10% das empresas.

Supermercados

Em maio, os supermercados venderam 2,3% a menos do que em abril. Alega-se que em 1995 o recuo foi maior (6%), de maio para abril. Lérias. Maio de 1995 foi o pior mês do ano para o setor. Causas: greve dos petroleiros e chuvas excessivas.

Quebras

O número de concordatas (que a própria empresa pede) caiu 25% sobre abril, em São Paulo. Mas o número de falências pedidas, que é quase cinco vezes maior, subiu para 275, ou mais 6,5% sobre abril.

Polianas

A Serasa, órgão mantido pelos bancos que deveria ser técnico, aderiu ao otimismo fabricado. Diz que o número de pedidos de falência não significa nada. Seria só uma forma de pressão de credores, para forçar empresas a pagarem dívidas. É mesmo? Engraçado. O número de falências decretadas chegou a 375 em maio, 68% sobre 1995.

Exportações

O ministro diz, analistas repetem, o presidente proclama: as exportações estão crescendo 10%, sobre 1995. Em maio, só 7,6%. Em junho, pior ainda.

Desemprego

Na primeira semana de junho, a indústria paulista continuou a demitir. E na última semana de maio havia ocorrido um salto nas demissões. Com Dias das Mães, frio e tudo.



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