Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 26 de novembro de 1981
Será sinal de competência importar dormentes de madeira, isto é, gastar dólares com a compra de dormentes – para construir uma ferrovia na Amazônia, em lugar de aproveitar as árvores que serão derrubadas para a própria passagem dos trilhos? Pois é aí mesmo que o Brasil chegou, graças aos seus tecnocratas.
Ninguém se indigne com o esdrúxulo desperdício de dólares, nem mesmo sabendo que eles são obtidos em exportações realizadas às custas de sacrifícios do povo brasileiro, resultantes dos "perdões de impostos", "perdões de juros etc., que sangram o Tesouro Nacional, isto é, a Nação. É exatamente essa a estratégia dos tecnocratas: anunciar espalhafatosamente os "bons" resultados estatísticos de sua política, e esconder o que ela está custando ao País. O exemplo real, pode ser chocante – mas não é nenhuma exceção: os acordos e negociações que os tecnocratas assinam com empresas, governos e órgãos internacionais trazem sempre sangrias e prejuízos equivalentes ao País.
A importação de 1,5 milhão de dormentes de madeira, com gastos de 30 milhões de dólares, se destina exatamente ao primeiro projeto em execução na região de Carajás, na Amazônia. Mais exatamente, à construção da ferrovia que transportará, inicialmente, o minério de ferro extraído pela Vale do Rio Doce das Jazidas da região. Para esse projeto, os tecnocratas assinaram um empréstimo de 215 milhões de dólares do Banco Mundial, dos quais, segundo a publicação "Relatório Reservado", nada menos de 80%, ou 170 milhões de dólares, terão que ser obrigatoriamente aplicados em importações – e apenas 45 milhões de dólares em produtos fabricados pela indústria nacional. Mais uma vez, portanto, o Brasil toma empréstimos que nada mais são do que "créditos" a serem obrigatoriamente usados em compras realizadas nos países ricos. Máquinas, correias transportadoras, parafusos ou dormentes que poderiam ser produzidos dentro do País, gerando riquezas – e empregos. E, que, ao contrário, geram algo bem diferente: mais dívida externa. Que exigirá mais exportações, mais "perdões de impostos e juros". E mais acordos, que gerarão mais importações e mais dívidas. Mais sacrifícios. Um círculo vicioso eterno.
O programa Grande Carajás, para aproveitamento dos minérios, energia e terras da Amazônia representa, para o Brasil, a chance de romper esse círculo vicioso. Representa a possibilidade de exportações de bilhões e bilhões de dólares, daqui a alguns anos, ajudando o Brasil a pagar seus compromissos no Exterior e a reduzir a dívida externa a dimensões suportáveis, que não provoquem a inacreditável hemorragia de juros, na casa dos 20 bilhões de dólares por ano, que o País hoje suporta. Nem exijam os "acordos" que o País hoje assina, para fazer importações forçadas, endividando-se mais e mais.
E esse o papel que as riquezas da Amazônia podem desempenhar: livrar o País da dependência em relação ao Exterior, a que ele foi submetido. Isso só acontecerá, porém, se a sociedade brasileira, suas lideranças – e, felizmente, isto está ocorrendo em muitas áreas – tomarem consciência de que o futuro do País pode ser determinado pela forma como aquelas riquezas vierem a ser exploradas. A intenção dos tecnocratas, já oficializada publicamente, é executar o programa Grande Carajás dentro do "modelo" adotado até hoje: perdões de impostos, de juros, aos grandes grupos internacionais, isto é, mais sacrifícios, e não vantagens, para o povo brasileiro. Acordos para importações, com os mesmos efeitos. E até arrendamento de terras a multinacionais e governos estrangeiros para formação de "plantations", altamente mecanizadas – isto é, que gerarão poucos empregos.
Mantidas essas diretrizes, o Grande Carajás, que poderia ser a "redenção do Brasil", anunciada por ministros, representará apenas mais sacrifícios e mais dívidas para o País. Mais dependência do Exterior. O País precisa debater intensamente a implantação do Grande Carajás, discutir o prazo ideal e o grau de participação dos grupos estrangeiros.
Lembrete: aqui, ninguém dê ouvidos às críticas (ou ironias, mais provavelmente) saídas das bocas dos tecnocratas, contra "protestos nacionalisteiros" em torno de Carajás. O que está em jogo não é a necessidade de participação do capital estrangeiro no Grande Carajás: ao menos na área de mineração e produção de metais, sabe-se ser importante obter sócios internacionais que participem dos projetos e comprem uma parte da produção das futuras minas e usinas, isto é, garantam a exportação futura. Aceitar sócios, porém, não significa entregar o controle das riquezas a eles. Nem enriquecê-los, e a seus países, com incentivos – e importações desnecessárias. Quem precisa dos recursos naturais de Carajás são eles. Que paguem. Ao menos.