Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 20 de agosto de 1996
Os agricultores do Paraná estão entrando em desespero. As plantações de trigo, que prometiam grandes colheitas, estão sendo dizimadas pela seca, com quebras que já chegam de 20% a 30% da produção em algumas regiões.
Não há seguro para pagar essas perdas?
Há poucas semanas, o presidente FHC anunciou que, para estimular a contratação de seguros pelo produtor (somente aquele que toma empréstimos), o seu custo estava sendo reduzido: de 11,7% para 4% sobre o valor do crédito.
Provavelmente, ninguém da equipe econômica disse ao presidente que, junto com aquela redução, os contratos de seguro também encolheriam, isto é, não mais cobririam danos provocados por secas.
O seguro passou a cobrir apenas os efeitos de vendavais, granizo ou chuvas torrenciais. Seca, não.
Levando-se em conta que o trigo é plantado no inverno e que vendavais, granizos ou chuvas torrenciais são típicas do verão, pode-se deduzir que os teóricos da equipe FHC/BNDES agiram com grande dose de má-fé, tirando a proteção do produtor exatamente contra a estiagem. Isso em um momento marcado, em todo o mundo, por secas freqüentes. Mais uma vez, enquanto o presidente da República proclama intenções de apoio à agricultura, na prática, a equipe econômica sabota a efetivação dessa política.
Reafirma-se a necessidade de o presidente FHC ouvir as lideranças agrícolas, pois outros atos de sabotagem, ou resultantes, mesmo, de visões teóricas, continuam a impedir uma "reviravolta" na agricultura. Os agricultores precisam de garantias efetivas, compromissos visíveis do governo, para ampliar o plantio dessa próxima safra, transformando a agricultura em poderoso instrumento de geração de empregos e renda, e de combate à recessão.
Para chegar lá impõem-se mudanças urgentes no crédito, seguros, compra de safras, abandonando-se mitos criados pelos teóricos da equipe FHC/BNDES.
Eles pregam uma falsa "modernização" também para a agricultura.
O presidente FHC anunciou empréstimos de R$ 1 bilhão para a "agricultura familiar", os micro e pequenos produtores. A cifra é demasiado modesta. Afinal, são 5 milhões de famílias, de 20 a 25 milhões de pessoas.
Pior ainda, nos últimos dias, surgiu uma informação nova: da cifra de R$ 1 bilhão, apenas R$ 200 milhões serão emprestados para os produtores plantarem.
A parcela de R$ 800 milhões será reservada para "investimentos". Só R$ 200 milhões para plantar? Dá R$ 40 por família.
Há entre 12 e 15 milhões de agricultores no país, aí incluídos os 5 milhões de micro e pequenos.
O número de produtores que consegue empréstimos pouco passa de 1 milhão. Os bancos privados fogem desses clientes, exatamente por causa dos riscos oferecidos pela agricultura.
A equipe de banqueiros-economistas FHC/BNDES fala, de boca cheia, em "modernizar" o crédito e diz que os bancos vão tomar empréstimos no exterior para repassar aos produtores. Balela. No ano passado, previa-se que a captação de dinheiro lá fora chegaria a R$ 5 bilhões. Depois, falou-se em R$ 2 bilhões. Foram só R$ 500 milhões. Titica.
Cabe ao presidente FHC combater essas teorizações da equipe, discutir e fixar valores para o crédito agrícola.
De onde tirar o dinheiro? A Caixa Econômica Federal, por exemplo, pode parar de comprar "créditos podres" dos bancos, e repassar o dinheiro que está sobrando, para o BB emprestar ao produtor. Mas há outras fontes.