Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 7 de maio de 1982
O processo de queda das taxas de juros nos mercados internacionais, considerado essencial para a reativação da economia mundial, aparentemente foi deflagrado. Ontem, o Banco Central da Alemanha Ocidental reduziu em 0,5 ponto, de 9,5% para 9% e de 9% para 8,5%, o custo do dinheiro emprestado aos bancos comerciais, iniciativa imitada pelo governo da Holanda.
No mercado londrino, a Libor, taxa de juros que incide sobre os empréstimos internacionais — paga, por exemplo, pelo Brasil —, caiu cerca de 0,25%, para 14,75% (ou quase 2 pontos abaixo dos 16,5%, em média, que o governo brasileiro previa pagar sobre sua dívida, este ano). Também em Londres, o custo do dinheiro para aplicações em títulos caiu quase 0,5, de 13,5% para 13% 1/8.
O declínio foi provocado, em grande parte, pela notícia de que, na madrugada de ontem, o governo Reagan conseguira um acordo, com o Comitê de Orçamento do Senado, para reduzir em 76 bilhões de dólares o déficit federal previsto para 1983, isto é, de 182 para 106 bilhões de dólares.
Paradoxalmente, nos próprios EUA o mercado financeiro não reagiu favoravelmente ao "corte", mantendo-se a prime rate — a taxa de juros cobrada pelos bancos nos empréstimos a clientes preferenciais — que continuou na faixa de 16,3%. Para os observadores, no entanto, esse nível é insustentável,já que a inflação norte-americana está em violento declínio, chegando a registrar queda de 0,3% em março último, pela primeira vez em dezessete anos.
RECUPERAÇÃO
O presidente Reagan, ao comentar ontem o acordo firmado com o Comitê de orçamento, voltou a preconizar o declínio nas taxas de juros em seu país, acenando com a possibilidade de uma reativação dos negócios, gradual, a partir desse momento.
Aparentemente, a crença de Reagan é compartilhada pelo governo alemão, cuja decisão de reduzir o custo do dinheiro em seu país, há multo planejada — a exemplo de outros países industrializados —, vinha sendo adiada exatamente por causa das elevadas taxas de juros vigentes nos EUA, capazes, pela remuneração oferecida ao investidor, de atrair capitais, enfraquecendo (no caso) a posição do marco diante do dólar.
Ao anunciar sua decisão, o Banco Central da Alemanha afirmou que o "afrouxamento" da política de crédito faz parte de um programa de reativação gradual da economia. Além da previsão do declínio dos juros nos EUA, a nova orientação foi viabilizada — disse um porta-voz — pelos resultados mais favoráveis obtidos pela Alemanha em suas contas externas, este ano. Em 1981, a balança de contas correntes alemã havia acusado um déficit de 9,1 bilhões de marcos, reduzindo-se para 1.7 bilhão, este ano. (A.B.)