Jornal Diário da Manhã , quarta-feira 14 de dezembro de 1983
UMA VIRADA – economistas vinham prevendo uma elevação nas taxas internacionais, nestes próximos meses, em função de dois fatores principais. Primeiro, a própria recuperação da economia norte-americana, que resultaria na necessidade de maior volume de crédito, inclusive para novos investimentos, por parte das empresas. Essa pressão parece temporariamente afastada, porque os lucros vêm crescendo rapidamente, permitindo que os empresários recorram menos aos bancos. O outro fator de alta dos juros seria o déficit do Tesouro norte-americano, calculado em quase US$ 200 bilhões para o exercício fiscal de 1984 (iniciado na verdade em outubro último, e a terminar em setembro de 1984). Agora, admite-se que o déficit poderá ser bem menor: com a recuperação da economia dos EUA, a arrecadação de impostos vem subindo, e os gastos sociais do governo (pagamentos do seguro-desemprego, por exemplo) vêm caindo. Já em outubro último, o déficit foi inferior ao de igual mês em 1982. Passou-se a acreditar, assim, até mesmo em uma possível queda nas taxas de juros internacionais. Para cada recuo de 1% o Brasil economiza cerca de US$ 700 milhões, no pagamento de juros aos banqueiros.
EFEITOS MULTIPLICADOS – a queda dos juros internacionais, caso concretizada, colocaria em cena dois novos fatores positivos para as exportações brasileiras. Com o crédito mais barato, aceleram-se os negócios com produtos agrícolas e metais, nas bolsas internacionais de mercadorias, resultando em elevação nas cotações. E, aliviando-se a carga de juros de todos os países endividados, permite-se que eles aumentem suas importações – estimulando-se todo o comércio internacional.
PARA ONDE VAI O DINHEIRO – líderes de exportadores deflagraram uma campanha para evitar que o governo corte o crédito subsidiando às exportações, em 1984. Deveriam ruborizar-se, pela iniciativa. Em 1983, as indústrias e empresas exportadoras ganharam um crédito subsidiado, com juros de apenas 60% ao ano, porque se havia calculado, no começo do ano, que a inflação seria de 80%. A inflação foi a 200% e as taxas de juros para o setor não mudaram, permitindo lucros vergonhosos às custas do Tesouro Nacional. A Cacex, sempre tão distraidinha quando se trata de combater privilégios dos grandes, esqueceu da mudança.