Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 16 de abril de 1996
Nem os mordomos, nem os banqueiros. Quando estourou o caso Econômico, o governo FHC tentou jogar a culpa nos ombros dos fiscais do Banco Central.
Com documentos entregues aos jornais, os fiscais provaram sua inocência, e o país acabou sabendo que o governo vinha injetando bilhões no Econômico desde meados de 1994.
Provado que o mordomo não era o criminoso, o governo FHC, sempre tentando inocentar-se, voltou baterias para o dono da casa, o banqueiro Ângelo Calmon de Sá.
Desde então, procurou-se convencer a opinião pública de que a "quebra" ocorreu porque o Banco Econômico, ou o banqueiro Calmon de Sá, "desviou" dinheiro para outras empresas do grupo.
Quando se fala em "desvio", pensa-se em "desfalque", "sumiço" do dinheiro, embolsado por quem quer que seja. E não é isso? Não. A lei impede que bancos façam empréstimos a empresas do próprio grupo _e o Econômico cometeu essa ilegalidade.
Mas o dinheiro não "sumiu". Foi emprestado, em operações ilegais, mas documentadas por contratos _vale dizer, é um dinheiro que continua a existir nas contas do banco. Logo, se eles apresentam um "rombo" de R$ 3 bilhões ou R$ 4 bilhões, não é por causa de "desvios".
Empenhado em reforçar as acusações a Calmon de Sá, o governo FHC liberou trechos de relatório da comissão de inquérito do próprio BC que investiga as operações do Econômico, publicados pela "Gazeta Mercantil" na última quinta-feira, dia 11 de abril.
O relatório é um novo tiro pela culatra: com 15 mil páginas, ele mostra o mar de fraudes que são rotineiras no mercado financeiro, por conivência de Banco Central e governos.
Há de tudo: operações fictícias, roubo do dinheiro dos investidores em fundos de commodities, operações falsas com contratos de exportação. E o mais importante: mostra a participação de grandes empresas nessas fraudes, colocando a nu um ponto sempre esquecido pela opinião pública.
Quando se fala em fraudes no mercado financeiro (remessa de dólares, sonegação, "caixa-dois" etc.), pensa-se em irregularidades cometidas apenas pelos próprios bancos.
Esquece-se, quase sempre, que empresas e grupos poderosos também realizam essas operações fraudulentas, com os bancos desempenhando o papel de intermediários. Mais do que nunca, justifica-se uma CPI.
Empréstimos para financiar exportações podem ser tomados a juros internacionais, na faixa de 6% a 8% ao ano. Ao ano.
Resultado: graças às regras "boazinhas" do BC, surgem operações "frias", com a participação de grandes empresas _e bancos estrangeiros. Para estes, o interesse é receber "juros extras", ou comissões.
O relatório do Banco Central diz que eles não sabiam que as operações eram "frias". Foram enganados pelo Econômico. Santarrões.
Os investidores em fundos de commodities do Econômico (e outros) foram lesados. Contratos de compra e venda de colheitas agrícolas eram forjados, com preços acima ou abaixo do mercado, para dar lucro ao banco ou empresas coligadas _à custa de prejuízos para os fundos. Isto é, para quem tinha dinheiro neles.
Para operações "frias" com os contratos de compra e venda de produtos agrícolas, era necessária a participação de empresas (agrícolas e industriais) do setor. Elas aceitavam "alugar" seu nome para dar aparência de legalidade às operações. Como compensação, recebiam comissões ou pagavam juros mais baixos nos empréstimos tomados junto ao banco.
Os contratos "frios" de exportação também têm a participação de empresas, que igualmente "alugam" seus nomes para viabilizar a operação.
A diferença entre os juros internos e externos é tão brutal que o banco paga comissões, de 2% a 5%, como "aluguel". Isso não é segredo para ninguém, nem para o BC.
Os empréstimos para exportadores (os chamados ACCs) passam dos R$ 30 bilhões. Equivalem hoje a mais de 80% das exportações brasileiras.
O relatório sobre o caso Econômico mostra os caminhos que empresas e bancos trilham no Brasil na busca de lucros _com a omissão do BC. Por que acreditar que a operação Nacional/Unibanco foi absolutamente inatacável?