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  Desemprego e Inflação

Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 12 de maio de 1983


Uma rede de supermercados triplica seus lucros, de 1981 para 1982. Uma siderúrgica carioca amplia os lucros em 475%, contra aumentos de 128% nas vendas.

Uma indústria de lâmpadas aumenta as vendas em apenas 80%, abaixo da inflação do ano, e seu lucro quadruplica. Uma indústria de tratores aumenta suas vendas na mesma proporção da inflação do primeiro quadrimestre de 1983, isto é, sem expansão real, e o lucro operacional quadruplica, para Cr$ 2,0 bilhões, enquanto o lucro líquido cresce mais de 40 vezes, de 16 para 640 milhões de cruzeiros.

O lucro é vital para as empresas, não se discute. Mas os resultados de balanços empresariais em 1982 e neste começo de ano exigem reflexão – pois mostram, mais uma vez, que é a falta de uma política econômica, o desgoverno, que estão agravando os problemas do País, empurrando-o para o impasse.

A enorme elevação da lucratividade das empresas põe a nu um fenômeno que não vem sendo suficientemente avaliado: o Brasil mergulha cada vez mais na estagflação, no desemprego crônico, na carestia sem limites porque a economia virou o reino do “salve-se quem puder”.

Está cada vez mais claro que as empresas já não se preocupam em vender mais, em produzir mais, procurando, ao contrário, aumentar sua margem de ganho – com os lucros crescendo em um ritmo muito mais acelerado que o faturamento. Produzem e vendem menor número de unidades – com lucros maiores sobre cada unidade vendida. Na prática, isso significa mais inflação, mais desemprego, mais estagnação econômica. Mais crise social. Culpa das empresas, ou de total falta de comando para a economia brasileira?

A inépcia e omissão dos ministros da área econômica e seus assessores chega às raias do inacreditável, levando as empresas a uma “corrida suicida” em busca de lucros, para não perder terreno para os concorrentes: “suicida” , porque o médio prazo a recessão ou a crise social atingirão proporções incontroláveis. Basta ver o que vem acontecendo, ainda agora, na área de preços, para avaliar os riscos que o País está correndo: depois da inflação de janeiro, Brasília fingiu tomar medidas para controlar a inflação.

Diz-se que o CIP – Controle Interministerial de Preços, foi revigorado assim como a Secretaria Especial de Abastecimento e Preços. Estabeleceu-se, também, que as empresas somente poderiam aumentar seus preços em uma proporção equivalente a 90% da correção monetária das ORTNs. E, mais ainda: as empresas e setores que, em 1982, tivessem majorado seus preços acima desse teto dos 90%, agora teriam que segurar os preços, durante alguns meses, até que se enquadrassem nas novas regras (simplificadamente: quem aumentou preços em 120% em 1982, ou 30% acima do “teto” desejado, teria que esperar a inflação aumentar 30% ou 35% nos próximos meses, antes de fazer reajustes).

Note-se bem: com o retorno da CIP, as empresas, para realizarem os reajustes, teriam que justificar seus pedidos, demonstrando um aumento equivalente nos seus custos. Note-se ainda: a determinação do governo previa aumentos de “até” 90% da correção monetária, isto é, esses 90% seriam “o máximo” de aumento permitido – e desde que justificado pela elevação de custos.

O que se está vendo? Não é segredo para ninguém, não é informação de bastidores: todos os dias, nos jornais, dirigentes de setores empresariais anunciam, com todas as letras, que estão realizando “sempre” reajustes pelo máximo “permitido”. Isto é, mesmo que seus custos tenham subido só 1%, ou 2%, ou 3% em um determinado mês, os setores empresariais estão comunicando ao CIP que vão aumentar seus preços em 8% ou 9% permitidos como “teto”. E aumentam.

Com essa sistemática de reajustes, nem em anedota de português a inflação brasileira pode cair – pois todos os preços estão sendo reajustados numa proporção no mínimo equivalente a 90% da taxa de inflação (e não aos custos de cada empresa ou setor). E a impudicícia que grassa neste país é tão grande, que ninguém fica pasmo com os anúncios de aumentos de preços, nesses moldes, feitos as escâncaras.

Os lucros do ano passado, os aumentos de preços do ano passado, mostram que muitos setores poderiam contribuir, este ano, para derrubar a taxa de inflação, moderando seus reajustes de preços. Não se fala nisso. Ao contrário a própria indústria automobilística, que aumentou preços de alguns modelos em até 160% de abril de 82 a abril deste ano, insiste não apenas em praticar o aumento máximo teoricamente permitido pelo governo: ainda este mês, queria um aumento acima do “teto”.

São os salários que provocam inflação e desemprego. É o que os s balbuciam anos a fio, em lugar de desgovernarem o País.



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