Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 29 de setembro de 1983
“Os negócios com o milho nos últimos meses, deram maiores lucros que o ouro ou o dólar no paralelo. A especulação chegou a tal ponto que empresas que jamais mexeram com milho estão com o produto estocado para a venda a preços altos”. As conclusões são de um dirigente empresarial, o presidente da Associação de Indústrias de Rações de São Paulo, Salvador Firace, em declarações à imprensa paulista, neste começo de semana.
Assim como ocorreu com a soja, o feijão e a carne, a disparada dos preços do milho, nos dois últimos meses, faz parte de uma das mais gigantescas manobras especulativas já realizadas no Brasil, com a participação de grandes grupos econômicos, indústrias e instituições financeiras – e favorecida por estranhos erros da Seplan e do Ministério da Agricultura.
O caso do milho, em particular, foi marcado por lances rocambolescos: a força dos especuladores dobrou os preços da saca do produto, de Cr$ 5.200,00 para Cr$ 10.000,00, em apenas cinco dias úteis. Somente com 520 mil toneladas de milho vendidas pelo governo a esse grandes grupos, o lucro pode aproximar-se de Cr$ 50 bilhões, em menos de um mês e meio. Mas a cifras envolvidas na manobra especulativa são muito maiores: segundo recente entrevista de porta-vozes do ministro da Agricultura, existem hoje cerca de 3,0 milhões de toneladas estocadas no país. Vendidas ao preço que o milho vem alcançando no mercado internacional, em torno de Cr$ 6.000,00 a saca, ou cerca de Cr$ 100 mil a tonelada, essas 3,0 milhões de toneladas renderiam Cr$ 300 bilhões. Vendidas ao preço de Cr$ 10.000,00 a saca, que os especuladores estão tentando impor ao mercado, as mesmas 3,0 milhões de toneladas renderiam Cr$ 500 bilhões – um lucro, portanto de Cr$ 200 bilhões. O governo parece estar tentando esvaziar a manobra, que fez o milho brasileiro custar quase 70% acima do nível de seus preços no mercado mundial: Cr$ 10.000,00 vs. Cr$ 6.000,00 a saca. Há urgência, porém, na volta dos preços do milho a seus níveis normais, pois eles estão destruindo a suinocultura e a avicultura – além de serem os responsáveis, juntamente com outros alimentos, pela alta taxa de inflação em setembro, ao encarecerem as aves, ovos, carne bovina, carne suína e óleos.
Que caminho o governo poderia adotar para esvaziar a manipulação? Todas as empresas, intermediários, cooperativas deveriam ser forçados a declarar os seus estoques de milho. Quem estivesse estocado, não poderia participar dos leilões que a CPF vem realizando, e teria ainda o seu crédito progressivamente reduzido, também para “desovar” estoques. E no caso de ocultação de estoques, com sua não declaração? Numa segunda etapa (porém urgente), fiscais do governo investigariam a existência de estoques “clandestinos”, que seriam expropriados pelo preço médio registrado nos leilões da CFP nos últimos dois meses (excluído, naturalmente, o leilão em que as cotações foram “puxadas” pelo especuladores).
1 - Lucros com o milho vendido pelo governo
Nos primeiros meses do ano, o milho era negociado na faixa dos Cr$ 2.000,00 a saca de 60 quilos, em um mercado deprimido devido inclusive à existência de estoques em mão do governo, avaliados em 1,7 milhão de toneladas. Com as secas e inundações do Sul, as cotações entraram em alta e praticamente dobraram até o final de julho, quando bateram na faixa dos Cr$ 4.000,00.
Nessa época, o governo decidiu colocar seus estoques no mercado, para tentar conter os preços. As cooperativas de avicultores e criadores de suínos – principais compradores de milho, além das indústrias – desejavam que fosse adotado o sistema de “quotas” para a venda do produto, estabelecidas de acordo com o nível de consumo de cada um. O governo, através da Seplan e Ministério da Agricultura, rejeitou essa proposta – numa decisão que deu início à montagem do palco para a grande manobra especulativa, pois o milho da CFP passou a ser comprado e estocado por grandes grupos.
A partir do começo de agosto, o milho da CFP passou a ser leiloado nas Bolsas de Cereais de todo o País. Nos quatro primeiros leilões, o preço médio ficou em Cr$ 4.200,00 por saca de 60 quilos. No quinto leilão, porém, o preço médio pulava repentinamente para Cr$ 6.100,00, para na semana seguinte, disparar para Cr$ 9.800,00/Cr$ 10.000,00. Os grandes detentores de estoques passavam a tentar impor seu preço, de Cr$ 10.000,00, a todo o mercado, numa típica manobra especulativa. Se seu objetivo for atingido, somente como o milho comprado nos leilões da CFP, isto é, do governo, seu lucro chegará à casa dos Cr$ 50 bilhões, sobre uma “aplicação de capital” de Cr$ 40 bilhões, isto é, 120% em menos de um mês e meio. Quais os cálculos que levam a essa conclusão? Faltam estatísticas precisas, mas acredita-se que os três primeiros leilões da CFP resultaram na venda média de 80 mil toneladas de milho em cada um, ou o total de 240 mil toneladas. A Cr$ 4.200,00 a saca, chega-se a Cr$ 70,00 o quilo, ou Cr$ 70.000,00 a tonelada que, multiplicados pelas 240 mil toneladas, representariam Cr$ 16,8 bilhões. Hoje, esse mesmo milho, a Cr$ 10.000,00 a saca, renderia cerca de Cr$ 40 bilhões, com um lucro de quase 150% em poucas semanas.
No quarto e quinto leilões da CFP, foram vendidas 280 mil toneladas em todo país, segundo a “Folha de São Paulo” (27/08/83), isto é, 140 mil toneladas em cada leilão, aos preços médios ainda de Cr$ 4.200,00, no quarto leilão, e de Cr$ 6.100,00, no quinto. No total, os compradores teriam gasto Cr$ 9,8 e Cr$ 14,1 bilhões de cruzeiros, respectivamente, ou cerca de Cr$ 24,0 bilhões, que hoje ofereceriam um faturamento de Cr$ 47,0 bilhões, aproximadamente, com lucro portanto de quase 100% ou Cr$ 23,0 bilhões (aí nesses dois leilões) – em pouquíssimos dias.
2 - Uma “puxada” de 100% em apenas cinco dias
No dia 8 de setembro, as cotações pularam 30% na Bolsa de Cereais de São Paulo, em relação à véspera: de Cr$ 5.200,00 para Cr$ 6.800,00, entre a quinta e a sexta-feira. Três dias úteis depois, na quarta-feira seguinte, nova “puxada”, agora para Cr$ 10.000,00, com uma alta de praticamente 100% em cindo dias úteis.
Por que os especuladores jogavam com tanta certeza de impor seus preços ao mercado, ganhando rios de dinheiro em cima dos estoques guardados e em cima do próprio milho comprados dias antes na CFP? A própria CFP, ou o próprio governo, contribuíram para isso, ao vender cerca de 500 mil toneladas de seus estoques, em praticamente um mês (agosto) aos grandes compradores dos leilões da Bolsa. Pior ainda: mesmo quando veio a “disparada” final, no começo de setembro, em nenhum momento a CFP, ou o Ministério da Agricultura, tomaram a iniciativa de vir a público e comunicar oficialmente quais os estoques reais existentes no País: com essa eterna omissão, alimentaram os rumores de que os estoques estavam esgotados e permitiram também enorme confusão em torno das tão faladas exportações de 700 mil toneladas à União Soviética (na verdade, àquela altura, só faltava embarcar cerca de 200 mil toneladas).
Somente no começo desta semana – vinte dias após a disparada! – o Ministério da Agricultura e outras fontes esclareceram que há no mínimo 3,5 milhões de toneladas de milho estocadas no País: 2,0 milhões financiadas pelo governo (sistema EGF); mais 400 mil toneladas da CFP, mais 1,0 milhão em mãos de especuladores. E também somente no começo dessa semana começaram os leilões exclusivamente para os criadores de ovos, suínos e bovinos – afastando-se a indústria e os grandes grupos.
Nesses leilões, o milho vem sendo vendido na casa dos Cr$ 6.500,00/Cr$ 6.800,00, contra o preço de mercado, imposto pelos especuladores, de Cr$ 10.000,00.
É um começo para combater a especulação. Mas há mais a ser feito.