Jornal Folha de S.Paulo , domingo 29 de agosto de 1982
“O credor está sempre disposto a conversar com o devedor e a estabelecer condições de pagamento de acordo com o fluxo de caixa, com as possibilidades financeiras do cliente. Se o Brasil chegar a conclusão de que o adiamento , por dois ou três anos, no pagamento de prestações de sua dívida externa, permitiria que ele superasse seus problemas, deveria levar essas propostas aos banqueiros internacionais. A iniciativa, acompanhada da apresentação de planos que demonstrassem a possibilidade de colocar a casa em ordem, certamente encontraria receptividade por parte dos credores.”
A opinião de Afonso Vitule, vice-presidente do Brasilinvest – instituição de que participam grupos financeiros internacionais - permite definir, com maior clareza, o pensamento aparentemente predominante, nos meios empresariais, em relação à eventual necessidade de o Brasil renegociar a sua dívida externa. A tendência é, salvo raríssimas exceções, como o banqueiro Ary Wadington, presidente da Anbid, aprovar negociações com aquele objetivo de ganhar tempo, isto é, livrar o Brasil, temporariamente, da necessidade de captar dólares no Exterior a qualquer preço, como ocorre hoje, apenas para poder pagar juros e prestações da dívida que vão vencendo dia a dia, mês a mês.
Essa posição, que poderia ser chamada de "moderada" diante de propostas radicais anteriormente defendidas, rejeita a negociação abrupta, que poderia criar problemas com a comunidade financeira internacional, “mesmo porque a situação cambial brasileira não é igual a do México ou da Argentina”, como observa o presidente da General Motors do Brasil, J. Sanchez.
Essa moderação exigiria até que, para registrar com maior precisão as opiniões dominantes, se substituísse a expressão “renegociação” por “conversações para diluir o peso da dívida”.
Ela é hoje compartilhada mesmo pelo empresário Dílson Funaro, presidente da Trol, um dos defensores da iniciativa já desde 1979/80. Sem se impressionar com a recente queda nas taxas de juros internacionais e possível melhora na evolução da economia mundial, com reflexos positivos para o Brasil, Funaro considera que a situação financeira internacional continua a piorar, diante do crescente número de insolvências de países e empresas:
“Isto pode provocar crescente retração por parte dos banqueiros internacionais", tornando cada vez mais dramática a captação de empréstimos pelo Brasil, em situação reconhecidamente vulnerável diante do vulto dos seus compromissos externos.
Assim, o presidente da Trol considera as negociações com os banqueiros internacionais mais necessárias do que nunca – mas aceita, hoje, que o País se prepare cuidadosamente para isso, definindo previamente o momento oportuno para sentar-se à mesa das negociações, sabendo exatamente o que vai pedir - e, principalmente, apresentando planos claros, que convençam os banqueiros quanto à seriedade de suas intenções de eliminar os problemas que levaram ao impasse atual.
PROGRAMA DE AÇÃO
Entrevistado pela repórter Ana Lúcia Magalhães, da sucursal da "Folha" no Rio, o economista César Maia, diretor do Instituto de Economistas do Estado do Rio de Janeiro, repisa essa questão, que vem sendo a tônica das opiniões sobre o problema cambial:
De nada adiantará o País conseguir um desafogo a curto prazo e dentro de dois ou três anos enfrentar os mesmos problemas, até ampliados, pela concentração do vencimento
de compromissos. Em outras palavras, o Brasil precisa de mudanças de enfoque em
sua política econômica. No período de dois ou três anos, teria que criar superávits comerciais ou aumentar o volume de sua balança comercial, já que a elevação do comércio externo representa maior capacidade de pagamento por parte do País. O superávit poderia ser conseguido tanto via importações como através do aumento das exportações.
É nesta linha de raciocínio que Dilson Funaro justifica a sua proposta, de que o Brasil seja "profundamente preparado para a renegociação". Para ele, o governo deve traçar um rigoroso planejamento interno (“que não temos”), "espremer todos os gastos, investimentos", e ver quanto o País precisa, realmente, de recursos externos, para manter a economia em crescimento moderado, algo em torno de 3% a 4% ao ano.
O objetivo seria "congelar" a dívida a determinados níveis e dentro de determinado prazo, vale dizer, obter superávits e investimentos suficientes para pagar juros e outros compromissos como remessas de lucros, fretes, royalties etc.
Só então, com planos capazes de demonstrar a sua seriedade e disposição de criar condições para honrar seus compromissos, o Brasil viria a sentar-se na mesa de negociações. "A essa altura, a própria opinião pública estaria consciente dos problemas do País e intenções governamentais. Se houvesse um endurecimento dos banqueiros, o governo teria condições políticas para enfrentar eventuais interrupções na entrada de dólar no País, com todas as conseqüências daí advindas”.
A CASA EM ORDEM
Afonso Vitule, vice-presidente da Brasilinvest, apesar de não enxergar obstáculo às conversações sobre dilatação de prazos, considera que a atual preocupação em torno da dívida externa está "desfocada", e resulta do agravamento do quadro da economia mundial nos últimos meses:
Em nossos contatos com banqueiros e empresários do Exterior, sentimos que ninguém avalia problemas com base em acontecimentos de curto prazo, o que parece ser uma característica no Brasil, onde se passa rapidamente do otimismo para o pessimismo e da preocupação para a euforia. Assim o que importa para os banqueiros é o potencial do Brasil. O que não importa para os banqueiros é o tamanho da dívida. E, sim, para onde a economia brasileira caminha, de que forma ela é administrada.
Com essa análise, Vitule não pretende repetir os habituais argumentos de que é imensa a credibilidade da política econômica brasileira, junto à comunidade internacional. Ao contrário:
O que traz tranqüilidade aos banqueiros é o fato de haver avanços nítidos na solução de problemas. Se a inflação brasileira viesse caindo firmemente, por exemplo, o grau de confiança no Brasil cresceria enormemente, da mesma forma que a situação inversa provoca insegurança e desconfiança.
Vitule explica que não se trata de nenhuma idiossincrasia dos banqueiros em relação à inflação:
As taxas inflacionárias atuais, no entender dos banqueiros, desorganizam toda a economia; desestimulam os investimentos. Em outras palavras, a inflação cria dificuldades ao crescimento econômico – e, por extensão, dificulta o crescimento da produção, a um ritmo que permita ao País pagar a sua dívida externa. Sem falar, ainda, que a inflação e a estagnação agravam os problemas sociais, criando tensões políticas que também podem vir a perturbar a liquidação de compromissos no Exterior. É por isso que, para bom resultado nas conversações com os banqueiros, o Brasil precisaria de uma política econômica que tivesse apresentado resultados favoráveis, visíveis.
A VOZ DISCORDANTE
Na série de entrevistas que a “Folha” vem realizando, apenas o banqueiro Ary Wadington se declara uma posição radical: "Sou drasticamente contra a renegociação da dívida externa", afirmou ele à repórter Ana Lúcia Magalhães, para completar: "A simples abordagem dessa questão é quase um ato antipatriótico, porque pode provocar reflexos extremamente desfavoráveis sobre as nossas fontes supridoras de recursos.”
A acusação, num estilo muito comum nos tempos do "regime fechado" do regime Médici – em que levantar problemas era considerado um ato "subversivo" – é prontamente rebatida por economistas paulistas:
Insinuar que os banqueiros internacionais ficam sabendo dos problemas cambiais de qualquer país através do debate – pela imprensa é faltar à verdade. Hoje, o "clube dos banqueiros", na Suíça, dispõe de avançadíssimo sistema de controles e comunicações por computador, sabendo no mesmo dia de qualquer operação feita por qualquer país. É lógico que eles dispõem de todos os dados sob a dívida externa e a situação cambial brasileira, com uma precisão que ninguém, a não ser o Banco Central, pode obter no Brasil".
Wadington entende que a renegociação sempre possível, "mas nenhum banqueiro dará sequer um dólar a mais para esse país, afirmação que não correspondeu à realidade no caso do México e Argentina.
Para o presidente da Anbid, o governo brasileiro tem mostrado que administra bem suas contas externas. Além disso, apesar da entidade que preside ter lançado recentemente violento documento com críticas à política econômica, Wadington elogia também a condução da economia interna, justificando-se: “ Os desentendimentos sobre detalhes de implementação de política monetária perde relevância na medida em que a discussão amplia para a análise de resultados de médio prazo da política econômica”.
O presidente da Anbid considera que é preciso mais responsabilidade das lideranças empresariais brasileiras na questão da renegociação da dívida externa, e que eles analisem bem as conseqüências da medida:
"Empurrar o País para uma renegociação neste momento é tentar provocar uma crise, coisa que nenhum brasileiro tem direito de fazer".
A única coisa que o governo precisa fazer na sua opinião, é combater a inflação e aceitar que o padrão histórico de 40% é o limite máximo que a estrutura da economia brasileira está preparada para suportar. No seu entendimento, a renegociação não traria mais mobilidade para o governo tratar dos problemas internos. Essa opinião se choca com as propostas dos empresários segundo as quais o País precisa livrar-se do peso da dívida externa, entre outros motivos, exatamente porque pretexto de que é preciso estimular as empresas a tomarem empréstimos externos, as taxas de juros dos empréstimos internos foram elevadas a níveis escorchantes, nos últimos anos,