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  “Estrangulamento?? ou “estranguladores?? do cruzeiro?

Jornal Gazeta Mercantil , terça-feira 2 de dezembro de 1975


Em meados de 1968, o então Ministro da Fazenda, Delfim Netto, desmentindo possibilidade de uma violenta desvalorização do cruzeiro com uma imagem retumbante “seria o mesmo que matar um com um foguete de ogiva nuclear” - dando a entender que os problemas cambiais do país não eram assim tão graves. Três ou quatro semanas depois, o cruzeiro era violentamente desvalorizado, acima dos 20% e o país adotava a política de mini-desvalorizações, “para evitar as manobras especulativas contra o cruzeiro”, conforme as explicações do então diretor para área de câmbio do Banco Central, Paulo Lira, hoje na presidência da instituição.

O que aconteceu entre o bombástico desmentido do Ministro da Fazenda e a data da desvalorização? O país entrou em um processo de “estrangulamento” na área cambial – ou, melhor dizendo, o país foi estrangulado na área cambial. Houve um “cerco” cambial ao Brasil, em que empresas e instituições financeiras, nacionais e internacionais, “jogaram” de cartas marcadas para derrubar o cruzeiro.

A experiência de 1968 autoriza o lançamento de um alerta aos segmentos da máquina oficial e da opinião pública interessados na manutenção de condições para o desenvolvimento equilibrado do país, chamando sua atenção para os focos de pressão contra o cruzeiro, que podem ser identificados nos dias que correm. Como em 1968 o país pode vir a deparar-se com “estranguladores” na área cambial, levando a violenta desvalorização do cruzeiro, com efeitos arrasadores sobre a economia.

Os dados claros
No final da semana, o Ministro da Fazenda, Mario Henrique Simonsem, desmentiu que se cogite de desvalorizar substancialmente o cruzeiro. Respondia, assim, às repetidas reivindicações expostas frequentemente através da imprensa, para a adoção da medida. Quais as justificativas para essas pretensões? Pretexta-se que o cruzeiro está supervalorizado, o que estaria dificultando as exportações – uma afirmação que é claramente desmentida pelos fatos e, análise da evolução da taxa cambial na primeira página.

Como em 1968, porém, o desmentido do ministro não é suficiente, porque os “estranguladores” podem agir, como agiram naquele ano. Como o país chegou a um impasse cambial em 1968? É bom relembrar.

O Brasil acumulava reservas cambiais elevadíssimas em 1965 – como em 1973. Parte resultante de um “superávit” na balança comercial. Parte, resultante em empréstimos em moeda a curtíssimo prazo, sobretudo pela Resolução 289.

Em 1967, as importações “dispararam”, graças ao rebaixamento dos “impostos de importação” sobre quase todos os produtos da pauta brasileira de compra exterior e o ministro Reis Veloso declarou em 1974 que o salto nas importações brasileiras no ano passado se deveu também a um rebaixamento dos impostos de importação, “quase 90% dos produtos entraram sendo importados a tarifas baixas”, dizia ele, num estímulo às compras no exterior.

Em meados de 1968, o Brasil já gastara suas reservas, por três motivos: gastos excessivos com as importações, não renovação dos empréstimos externos que estão vencendo, e – atente-se – exportações abaixo das previsões.

Por que o Ministério da Fazenda não previu esse quadro, na época? Aparentemente o país confiava no crescimento das exportações e na renovação dos empréstimos, embora nenhuma explicação exista, até hoje, para a tolerância, ante as importações desmedidas. Houve porém um erro de cálculo – a ser correta essa interpretação – acontece que as principais exportadoras na época, basicamente de produtos agrícolas, eram também as principais devedoras de empréstimos em dólar às suas matrizes. Matrizes e subsidiárias tinham interesse na desvalorização do cruzeiro pois com ela ganhariam de várias formas (interesse que era compartilhado, também, pelos exportadores em geral, que receberiam mais cruzeiros pelos dólares recebidos, e por especuladores que “operavam” no câmbio negro). Numa ação conjunta, matrizes e subsidiárias (auxiliadas por outras fontes de pressão) criaram um estrangulamento incontrolável as matrizes exigiram o pagamento dos empréstimos de curtíssimo prazo que haviam feito às suas filiais e as filais não cumpriram as metas de exportações, isto é, o país ficou sem dólares para pagar os empréstimos. Um cerco completo e perfeito.

Uma repetição
Não se pode dizer que os dados sejam idênticos hoje. Mas eles são equivalentes, isto é, há da mesma forma “focos de pressão”, que podem dar margens a ações contra o cruzeiro. Um “foco” agora identificado, por exemplo, corresponde as Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional desde que o Ministério da Fazenda, por portaria datada de junho, e sem maiores explicações autorizou que os compradores optem entre correção monetária e a correção cambial. É evidente que os detentores 42,6 bilhões de cruzeiros em ORTNs emitidas até 30 de junho (as posteriores não dão direito a opção) “torcem” por uma brusca desvalorização do cruzeiro em 15 ou 20% que representariam mais 7,0 ou 8,5 bilhões (trilhões) de cruzeiros de lucro. Como em 1968 as armas podem em mãos de especuladores grandes empresas responsáveis por parcela ponderável das exportações brasileiras figuram certamente entre os compradores de ORTNs. Assim basta que elas “segurem” as exportações para que à míngua de dólares o país desvalorize o cruzeiro e haja duplo lucro para os especuladores através do recebimento de mais cruzeiros na troca dos dólares recebidos pela exportação e através da “correção cambial” das ORTN’s.

Sem ilusão
Alguns analistas poderiam ver, na concretização dessas hipóteses, uma “conspiração” contra o cruzeiro – e o país. Não se trata disso. Relembrando ainda uma vez o ex-ministro Roberto Campos – em depoimento exatamente perante uma CPI sobre especulação cambial - “especular não é imoral”. O bom empresário – dizia ele – é o que especula, isto é, antevê oportunidades de ganho para uma empresa – e terá proveitos dessa perspicácia.

É ao Ministro da Fazenda que cabe tirar as “armas” da mão dos especuladores, isto é, eliminar os possíveis focos de pressão, como é o caso da correção cambial para as ORTNs. Quanto ao banco central poderia usar rapidamente os computadores do Serpro para identificar as empresas exportadoras, possuidoras de ORTNs e que teriam interesse em uma desvalorização do cruzeiro. Pois o fato, concreto, palpável – e que precisa explicação – é que as exportações estão caindo assustadoramente, sobretudo em São Paulo. Por trás desse fenômeno pode estar, em parte, a atuação do mercado mundial. Mas, como em 1968, está também a expectativa, a quase certeza desvalorização do cruzeiro. “Natural”. Ou provocada.



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