Jornal Folha de S.Paulo , domingo 25 de outubro de 1992
O ministro Paulo Haddad tem dito que, se a inflação cair 1% (ou um ponto percentual) ao mês, até o fim do ano, o governo já terá obtido ótimo resultado, diante do pessimismo que reinava no país até há pouco tempo. Pode ser. É bom o governo não alimentar expectativas exageradas, para não criar frustrações. Mas um pouco de ousadia, sempre baseada em resultados reais, pode valer avanços surpreendentes na queda da inflação neste momento. Tudo depende de o governo aproveitar fatores favoráveis em cena – e, ainda, motivar o empresariado na mesma direção. Chegou a hora de a sociedade ter uma resposta mais precisa a duas questões: o que está acontecendo com a inflação neste mês de outubro e, mais ainda, o que já se pode dizer que vai acontecer com ela também no mês de novembro? Dados estatísticos são sempre úteis para ganhar credibilidade (e, por isso mesmo, seria importante que o governo os divulgasse insistentemente, neste momento, para reverter expectativas pessimistas):
Inflação de outubro
Em São Paulo, há forte perda de ritmo na alta de preços no atacado. Em Belo Horizonte, nas duas primeiras semanas de outubro, a própria taxa mensal de inflação já caiu dois pontos percentuais, para 24,7%, contra 26,7% mensais na primeira semana. Detalhe importante: essa queda não se deveu apenas ao recuo no ritmo da alta de alimentos (após a louca especulação de agosto/ setembro). Também os efeitos do salário mínimo vão saindo de cena: por causa dele o item serviços pessoais teve alta de 36% em setembro, recuando para 27% na segunda semana de outubro. Isso tudo, em Belo Horizonte. Em Porto Alegre, a mesma tendência já chegou ao varejo: o custo da cesta básica subiu 16% na primeira quinzena de outubro, contra 32% no mesmo período de setembro. Isto é, o ritmo de alta caiu à metade, sugerindo que a queda da taxa de inflação pode ser muito superior ao 1% sugerido pelo ministro Haddad. isso, para outubro.
Inflação de novembro
Como se sabe, a maioria dos índices de inflação, no Brasil, comparam preços médios das quatro semanas mais recentes com os níveis do período de quatro semanas imediatamente anteriores. Na prática, isso significa que uma queda no ritmo de alta de preços ocorrida até 15 de outubro só vai aparecer, como todo o seu peso, quatro semanas depois, isto é, lá para 15 de novembro. É importantíssimo o governo chamar a atenção da sociedade e dos empresários em particular para isso: com os resultados conhecidos hoje, em outubro, já se sabe que a inflação de novembro poderá ser substancialmente mais baixa, se depender do setor de alimentação.
Para baixo
As safras agrícolas desse ano, não apenas no Brasil mas também as mundiais, são excepcionais. Os preços dos alimentos só subiram em agosto e setembro por força de manobras especulativas sustentadas por erros do governo, agora superados. Por isso mesmo, já em outubro, os alimentos passaram a puxar a inflação para baixo. Milho: safra mundial recorde e preços internacionais ao nível mais baixo dos últimos quatro anos; soja: recordes também; laranja e suco, idem. Leite: sobrando em plena entressafra (daí as “campanhas” de venda de queijo em barracas); carne suína: recuou no preço da arroba de Cr$ 140.000 para Cr$ 120.000; carne bovina: preço de US$ 23 a arroba em setembro/ outubro, caindo para a faixa de US$ 18 para dezembro, no mercado futuro. Somente feijão aumentou de preços, mas a nova safra entra em novembro.
Claro que a inflação não depende apenas do custo de alimentos. Mas eles têm um peso brutal nos cálculos, aproximando-se dos 40% no caso da Fipe e IBGE. Com esse peso de 40%, uma alta de 30% para os alimentos representa, sozinha, 12 pontos percentuais da taxa de inflação; se a alta recuar para 20%, isso representa 8 pontos percentuais na taxa de inflação, isto é, uma queda real de 4 pontos, no final.
Aparentemente, o governo já atentou para a possibilidade de um recuo mais rápido para a inflação, em outubro e novembro. Seria essa, na verdade, a explicação para o comportamento do Banco Central nos últimos dias, com atuação que surpreendeu o mercado financeiro. Esperava-se que o BC puxasse as taxas de juros no over para cima, porque a TR para novembro será fixada com base nos rendimentos dos CDBs. O BC fez o contrário. Sinalizou, na segunda-feira, juros efetivos de 27, 8%, isto é, abaixo da faixa de 28,08% registrada para outubro. Um começo, mas é pouco. Neste momento, o país lucraria enormemente com uma boa dose de ousadia do governo, via Banco Central.
A essa altura, já está claro que a taxa de inflação de novembro pode ser bem mais baixa e uma TR na faixa de 26% a 27% criaria inflação sem necessidade. O governo poderia ter a coragem de apontar para uma TR baixa, aí, na faixa dos 22%. Caso a inflação do próximo mês fosse mais alta, a correção seria feita só no final de novembro. Não se alegue que os investidores do mercado podem perder algum rendimento, alguns pontinhos percentuais, com isso: afinal, os assalariados, os ganhadores do salário mínimo e os aposentados estão esperando quatro meses para terem seus ganhos reajustados, perdendo horrores com a inflação: por que o aplicador no mercado financeiro não pode dar um quinhão de sacrifício, mínimo aliás, para evitar uma TR inchada? Pelo menos neste momento? Aliás, já hoje o sistema da TR é totalmente distorcido, tanto que, uma caderneta com vencimento em 15/10 rendeu 26,14% e outra, em 19/10, só rendeu 23,35%, quase três pontos percentuais a menos... É hora de ousar, sim. Com um cuidado: explicar à sociedade a tentativa que está sendo feita de não “inchar a inflação”.