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  Transferindo a crise da matriz para as filiais

Jornal Opinião , sexta-feira 8 de novembro de 1974


A associação com empresas estrangeiras foi recomendada e estimulada, nos últimos anos, como excelente arma para a penetração no mercado externo. Para exportar, afirmava-se, nada melhor do que aceitar, por exemplo, que uma trading ou uma indústria têxtil japonesa comprasse pequena parcela do capital da empresa brasileira. Pois com sua “experiência” e representantes já em atividade no exterior, as vendas lá fora estariam asseguradas. As vantagens, nessa linha de raciocínio, eram muito maiores do que os riscos apontados por eventuais críticos, segundo os quais essa orientação tendia a colocar o comércio exterior brasileiro, logo as atividades econômicas do país, subordinado aos interesses de outros países. Na época em que o governo do Estado de São Paulo assessorado por técnicos ligados ao ministro da Fazenda estimulava mesmo empresas japonesas a participarem do capital de pequenas e médias empresas paulis¬tas, apontava-se que o apoio oficial coincidia com a própria estratégia japonesa, de controlar por meios “suaves” importantes setores da economia.

A atual desorganização da economia mundial está provocando a queda na produção de setores produtores de bens de consumo, como automóveis e têxteis. No Japão, as indústrias têxteis sentaram-se à mesa para reduzir ordenadamente a produção, isto é, deliberar quantos por cento cada empresa deverá deixar de produzir, para que nenhuma delas vá à falência. Tais acordos, que levam significativamente o nome de cartel para programação da redução da produção, são realizados sob o patrocínio do próprio governo japonês.

Fica claro que tempos difíceis sobrevirão para os países que aceitaram em larga escala o “sócio estrangeiro” no setor têxtil ou em outros visando principalmente con¬seguir encomendas no exterior. É evidente que, ao planejarem a redução de sua produção, as indústrias têxteis nipônicas (ou em outros setores) cortarão, primeiro, as encomendas às suas “filiais” ou “associadas” no exterior. Nem poderia ser de outro modo: as indústrias em dificuldades, lá como aqui, precisam do apoio governamental para sobreviver à fase crítica, através, por exemplo, de crédito para a manutenção dos estoques. É fácil prever que o governo japonês antes de soltar o dinheiro para as empresas, vai estabelecer condições entre as quais figurará, certamente, a exigência de não provocar queda excessiva na produção e portanto aumento excessivo do desemprego no próprio Japão. Uma empresa têxtil que hoje compra fios de uma subsidiária no Brasil por exemplo, certamente ten¬derá a ser “orientada” pelo seu governo no sentido de que passe a comprar fios no próprio Japão de uma outra empresa, mesmo que esta não seja pertencente àquele grupo em¬presarial. Para a subsidiária ficarão a queda na produção e aumento do desemprego: na primeira semana de novembro indústrias brasileiras no setor de fiação já estavam trabalhando com 50 por cento de sua capacidade, por falta de mercado externo.



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