Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 8 de agosto de 1975
Um programa nacional de alimentação, que previsse a venda maciça de alimentos subsidiados à população de baixa renda, seria o caminho mais rápido para a formação de um mercado de massas para a agricultura (e a indústria de alimentos) brasileira. Longe de ser apenas um “programa social”, portanto, representaria a oportunidade única – que não pode ser perdida – de evitar o agravamento das distorções do processo brasileiro de crescimento em anos recentes, retratados nos ciclos alternados a que a agricultura e a indústria são submetidas, com saltos na produção, seguidos de “crises” por falta de mercado, isto é, crises geradas pela baixa renda de milhões de famílias. Por efeitos em cadeia, a abertura de um mercado de massas para os produtos agrícolas criara renda no interior e, por extensão, mercado para os bens industriais. Promoveria a “interiorização” do crescimento econômico, gerando emprego e demanda no interior e, com isso, minimizando os atrativos hoje oferecidos pelos centros urbanos (como mercado de trabalho), fatores do “inchaço” das áreas metropolitanas. O país, partido de um único dado – a criação de mercado para a agricultura – eliminaria ou reduziria problemas em série, acelerando a curto prazo o ritmo de crescimento, sem distorções. Conseguiria, em outras palavras, evitar o desperdício de bilhões de cruzeiros na correção de distorções como os gastos imensos na tentativa de minimizar as deficiências de infra-estrutura das zonas urbanas, ou na tentativa de proporcionar assistência médica à população marginalizada vulnerável a doenças, também (por subnutrição), ou mesmo nos socorros periódicos a setores em dificuldades. Pouparia, em suma, recursos para novamente acelerar o crescimento em um processo cumulativo sem paralelo. Ou, em outras palavras, o subsídio à agricultura e ao consumo de alimentos renderia dividendos de efeitos várias vezes multiplicadores – pois colocaria a economia, como um todo, em ritmo acelerado.
Uma visão nova
Sabe-se que em várias áreas do governo, ligadas a diferentes Ministérios, estuda-se o lançamento de programas de alimentação. Há um consumo quanto a sua necessidade, do ponto de vista social, como instrumento para elevar o padrão alimentar – e, portanto, sanitário – de várias faixas da população. As discordâncias surgem, no entanto, quanto aos caminhos a adotar. Pode-se dizer que, ainda uma vez, estão em choque duas mentalidades. A primeira corresponde a correntes que acreditam que o suprimento de alimentos deve ser confiado a grandes empresas que industrializariam certos produtos agrícolas, dentro de padrões de custos fixados pelo governo. Trata-se, é evidente, da mesma filosofia “concentradora” que imperou nos últimos anos, de proporcionar grandes oportunidades de vendas, e de lucros, a pequeno número de grupos empresariais. Um “modelo” que concentra lucros e renda em poucas mãos, não resolvendo nenhum dos problemas do país – ou melhor, não exercendo o papel “multiplicador” que poderia ter. Levando forçosamente, ao mesmo círculo vicioso de sempre vastas faixas da população sem renda, inexistência de mercado, estrangulamento do crescimento econômico, ciclos de prosperidade e depressão. Por iniciativa de outras correntes, surge uma proposta nova, como oportunidade única para o país fugir aos impasses do “modelo concentrador”. Nela, o programa nacional de alimentação teria o consumidor, em um extremo, mas, no outro, estaria o fazendeiro e o sitiante. Os subsídios na compra de alimentos, em lugar de serem dados a meia dúzia de grandes grupos industriais, seriam dados diretamente aos produtores agrícolas que fossem incluídos no programa. É fácil perceber o alcance dessa proposta: o sitiante e o fazendeiro teriam maior renda, não seriam levados a vender suas propriedades a grupos agroindustriais, beneficiados pelo programa, a renda de seus trabalhadores cresceria, seria evitado o êxodo rural – e todos os problemas decorrentes do crescimento urbano acelerado. Esse crescimento da renda no interior – difundida, e não concentrada – levaria ao mesmo tempo à capitalização gradativa do agricultor, permitindo que ele partisse para a modernização da produção agrícola, também gradativamente – evitando-se a abrupta “mecanização”, inevitável nos grandes projetos agroindustriais conduzidos por grandes empresas. Em um “modelo” está o subsídio à alimentação, de caráter humanitário inegável, mas trazendo lucros para poucos, a concentração de renda e o impasse econômico a médio prazo. No outro “modelo”, está o subsídio à produção, com a distribuição da renda simultaneamente à solução do problema social, levando à rápida criação de um mercado interno. Sem os traumas e os desperdícios do modelo adotado nos últimos anos.