Jornal Gazeta Mercantil ,
Até a Itália, a “economia doente da Europa”, em 1974, quando registrou uma taxa anual de inflação da ordem de 26%, conseguiu uma queda de preços da ordem de 0,5% no atacado em maio último, segundo dados ontem divulgados. Na véspera, órgãos oficiais revelavam nova queda nos preços ao consumidor nos EUA (menos 0,1% em junho), e dos preços no atacado na Suíça e na Holanda, com menos 0,8% e menos 0,4% respectivamente em junho e abril últimos. Pode-se dizer, em resumo, que praticamente desde novembro do ano passado, os países industrializados vêm acusando altas mensais de preços em torno de 0,5% ao mês, ocorrendo frequentemente, desde março último, taxas negativas de inflação, isto é, declínios reais de preços. Essa tendência traz perspectivas otimistas para a economia brasileira – mas encerra também riscos novos. Como dado positivo a queda acentuada na inflação mundial abre caminho para que os governos dos países industrializados acelerem a implantação de medidas favoráveis à reativação da produção, anteriormente contida por força exatamente de políticas rígidas de combate à inflação (não devendo ser esquecidos outros fatores como “super-estocagem” e a “super-capacidade de produção”, resultantes da euforia do “boom” deflagrado desde o início dos anos 70). A guinada da “deflação” contribuirá para reativar a economia mundial e, por extensão, o comércio exterior brasileiro. Em contrapartida, porém, o declínio da inflação mundial reforça as desvantagens da persistente inflação brasileira.
FALTA DE CONTROLE
Desde o último trimestre do ano passado, quando se esboçava a queda de preços nos países industrializados, já se alertava as autoridades do Ministério da Fazenda para a necessidade de uma atitude nova diante de um problema emergente, representado pelo descompasso de preços no Brasil e no exterior. O fosso que se alargava traria sérias conseqüências, interligadas e interinfluenciadoras, que agora vão ficando nítidas: as desvalorizações do cruzeiro terão que ser maiores, já que os reajustes das taxas cambiais se baseiam, exatamente, na diferença entre a inflação no exterior e a alta interna de preços. Com isso, como conseqüências reflexas, há o encarecimento das importações, com novos reflexos (realimentadores) sobre a inflação. Ao mesmo tempo, as desvalorizações cambiais aumentam a dívida externa do país, em geral, e aumentam a dívida das empresas que tomaram empréstimos no exterior, em particular – e isso as obriga a aumentarem seus preços no mercado interno, para obter mais cruzeiros necessários à compra de dólares com que devem pagar as prestações de seus compromissos no exterior (realimentando novamente a inflação).
REALIMENTAÇÃO EM CADEIA
Ainda mais: o custo do dinheiro, tomado emprestado no exterior, é resultado da soma das taxas de juros cobrados no mercado internacional (em torno de 7% anualmente, mais a desvalorização cambial, além de impostos e taxas e “corretagens” cobradas pelos banqueiros. Atualmente, para uma desvalorização cambial calculada em 18% ao ano, o custo final do dinheiro externo oscila em torno de 30%, nível inferior ao cobrado nos empréstimos de longo prazo no mercado interno. Se a desvalorização cambial for mais alta, no entanto, esse custo do dinheiro poderá aproximar-se dos 40% e, como resultado, as empresas que hoje recorrem ao mercado financeiro internacional (sobretudo filiais de multinacionais) darão preferência à tomada de empréstimos junto ao sistema financeiro brasileiro. Essa “demanda extra” de crédito resultará em falta de liquidez para as pequenas e médias empresas (como ocorreu efetivamente em 1974), e aumentos das taxas de juros com cobranças “por fora”. As autoridades monetárias, como no ano passado, serão forçadas a tolerar essas altas taxas, e talvez, mesmo se vejam obrigadas a oficializá-las, para que as empresas voltem a procurar recursos no mercado externo (pois desses recursos tomados pelas empresas, individualmente, depende o equilíbrio do balanço de pagamentos do país). Assim, dinheiro a custo mais alto para as atividades produtivas é o outro fenômeno que poderá realimentar a inflação brasileira.
FALTA DE CONTROLE
Os técnicos do Ministério da Fazenda vinham considerando todos esses dados como perigos remotos, por força de um raciocínio equivocado: a desvalorização do cruzeiro, em um determinado mês, se baseia na diferença entre a inflação brasileira e a inflação no exterior ocorrida nos doze meses anteriores (simplificadamente, seria a diferença entre a soma das altas de preços registradas em cada um desses doze meses anteriores). Por volta de dezembro de 1974, essa “soma” resultaria em uma taxa anual de inflação (com base nos doze meses anteriores) em torno de 18% ao ano; assim, se o Brasil chegasse ao final de 1975 com 22 a 25% de inflação ao ano, o “fosso” seria de apenas 4 a 7%, e a desvalorização do cruzeiro não precisaria ir muito além. O hábito de lidar com estatísticas “velhas”, e, no caso, com inflação “velha”, de meses anteriores, não levou em conta o previsível e palpável declínio da inflação mundial desde o começo deste ano. À medida que os meses passaram – já estamos no segundo semestre do ano – com meses e meses de baixas taxas inflacionárias nos países industrializados, a soma dessas taxas nos últimos doze meses já está resultando em uma inflação externa abaixo dos 10% e de até apenas 6% em alguns casos. E essa “soma” vai-se reduzindo a cada mês, na tendência atual. Enquanto isso, as previsões do Ministério da Fazenda, de uma taxa inflacionária de 1,5% ao mês para este ano foi desmentida por cinco meses a fio. O fosso cresce e se realimenta.