Jornal Diário da Manhã , quarta-feira 5 de outubro de 1983
Teve início finalmente a ofensiva governamental contra a especulação com alimentos, responsável e de uma forma esmagadora pela exploração nos índices inflacionários. A decisão de cortar o crédito das indústrias de óleo de soja, e realização do levantamento de seus estoques para combater a eventual sonegação, deve ser porém apenas o ponto de partida para uma ação ampla nessa área, sob a coordenação do próprio presidente da República. O recuo nos preços dos alimentos, através de pressões sobre os especuladores, é desejável não apenas por aliviar a situação da população, atingida pela carestia. Ele permitirá, também, que o país alcance uma série de outros objetivos que vem buscando, removendo-se focos de tensão que vem colocando em risco o próprio processo de abertura política.
Déficit público – O corte no crédito subsidiado não deve restringir-se às indústrias de óleo. É preciso repetir: pouca gente sabe, no Brasil, que o crédito subsidiado para a comercialização de safras é concedido não apenas aos produtores agrícolas, mas para todos pretensos participantes dessa comercialização. Grandes redes de supermercados, fábricas de produtos industrializados de carne, embaladores de cereais, organizações atacadistas tem, dentro dessa prática, acesso ao crédito subsidiado para a agricultura. O corte no crédito em todas essa áreas, para provocar a desova dos estoques e redução dos preços, trará, por isso mesmo, uma vantagem indireta: reduzirá o déficit do setor público, como é exigido pelo FMI. Conforme explicado repetidas vezes pelo Diário da Manhã, um dos componentes desse déficit é o descimento do crédito e dos subsídios, que obrigam o Tesouro a injetar mais recursos na economia, através de emissões de papel-moeda que levam a posterior venda de letras e obrigações do Tesouro Nacional.
Alternativa para o 2.045 – O principal objetivo do 2.045, que vem ameaçando as relações entre o Executivo e o Congresso, é reduzir o déficit público (através do achatamento dos salários dos empregados das estatais). Essa mesma redução, como visto, pode ser conseguida com a redução no crédito subsidiado, abrindo caminho para pelo menos abrandar o 2.045.
Controle monetário – O FMI vem exigindo também, como instrumento de combate à inflação, a contenção da expansão do volume de dinheiro dentro da economia. Será muito mais fácil atingir essa meta, se o governo, em lugar de precisar emitir, receber de volta os empréstimos que haviam sido concedido aos especuladores.
Realimentação da inflação – A disparada no custo de alimentos vinha realimentando a inflação também a médio prazo. Por exemplo, e paradoxalmente: os preços mínimos para a safra de 84, estabelecidos em julho/agosto, são reajustados mensalmente de acordo com a correção monetária de cada mês. Quer dizer: a alta de preços provocada pelos especuladores resulta em uma correção alta que por sua vez puxa os preços da próxima safra.
Realimentação da inflação, ainda – O cruzeiro é desvalorizado de acordo com a taxa de inflação. Assim, tem-se outro círculo vicioso: mesmo que os preços (em dólar) de um produto caiam no mercado internacional, seu nível no mercado interno pode até subir (para acompanhar o mercado mundial), quando se faz a conversão em cruzeiros (porque com a desvalorização do cruzeiro, é preciso um valor cada vez maior, em moeda nacional para “perfazer” o preço externo).