Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 7 de março de 1979
Já está confirmado oficialmente, através das diretrizes do novo presidente da República, que a agricultura terá prioridade no próximo governo, com um sem-número de objetivos: combater a inflação, através do aumento na oferta de alimentos; obtenção de excedentes de safras, para ampliar as exportações (e reduzir o déficit da balança comercial); fixar a mão-de-obra nos campos, para reduzir os fluxos migratórios e o crescimento das grandes cidades, que vêm exigindo investimentos maciços do governo, e assim por diante, com reações em cadeia.
Oficialmente, ainda, as diretrizes presidenciais já oferecem novidades, ao prever que, além da prioridade ao setor agrícola, será dada prioridade ao pequeno e médio produtor, a quem o crédito passaria a ser destinado, revertendo-se a tendência dos últimos anos, quando 3% dos grandes tomadores de empréstimos conseguiram abiscoitar 53% do crédito rural, que orçou pela casa monstruosa dos 320 bilhões de cruzeiros novos em 1978.
Essas, as diretrizes gerais, de caráter oficial. Mas, e na prática, no dia-a-dia, como seria o apoio à agricultura (tendo em vista aqueles objetivos todos)? Nos jornais, surge a informação de que a equipe do novo ministro está convencida de que é realmente possível conseguir um grande salto na produção agrícola sem realizar grandes investimentos na área. Ou, melhor explicado: chegou-se à conclusão de que o avanço pode ser obtido sem necessidade de colocar milhares de novos tratores no campo, e até mesmo com redução nos gastos com fertilizantes, defensivos e outros produtos que o agricultor passou a utilizar largamente nos últimos anos, em proporções exageradas, como sempre ocorre quando se adota um hábito novo qualquer. No caso específico dos tratores, o tema andou em moda dois últimos anos: técnicos oficiais criticaram com certa freqüência o fato de o produtor trocar de trator a cada ano, como quem compra sempre um carro último tipo. Ao que se retrucou ser essa mais uma distorção do crédito rural, que praticamente obriga o produtor a adquirir tratores novos, pois só assim ele consegue financiamentos nos bancos, a juros de pai para filho. O triste balanço dessa política, segundo os próprios críticos oficiais, é um enorme número de tratores subutilizados, ou parados mesmo, por todo o interior do País (ou, com menos exagero, por todo o interior da região Sul-Sudeste). Até aí, tudo bem. A megalomania que a tecnoestrutura e a mentalidade tecnocrática introduziram também na agricultura brasileira é certamente responsável por elevados custos de produção, incompatíveis com o próprio nível de renda do consumidor e com os preços do mercado internacional, exigindo freqüentemente subsídios na exportação. De um ponto de vista ainda mais amplo, ela também afeta a balança comercial, pela importação de matérias-primas, para as fábricas, e de combustível para a movimentação das máquinas. Mudar a tendência atual, portanto, resolveria vários problemas do País, de uma só vez, e que podem ser sintetizados em uma única expressão: desperdício como norma.
Mas é a esta altura que surge o “porém” da história, a saber: o que fazer com as fábricas de tratores e equipamentos agrícolas em geral, que já operam com capacidade ociosa? Na verdade, essa é a grande questão que o novo governo precisaria responder, em sua batalha contra a inflação e o déficit da balança comercial. Há, hoje, um grande número de setores industriais com capacidade ociosa no País (v. artigo anterior “Os planejadores brasileiros e o suicídio estatístico”). Por um lado, esse é um poderoso trunfo para combater a inflação e o déficit: essa capacidade ociosa toda significa que o País pode fazer uma pausa nos investimentos maciços que realizou de 1974 a 1979, sem correr o risco de mergulhar em problemas de escassez de oferta, que traria a inflação de volta. Uma oportunidade de ouro, em resumo, para reduzir importações (exigidas pelos grandes projetos dos últimos anos) e a demanda por financiamento, isto é, por empréstimos (idem, ibidem). Por outro lado, porém, cortar desperdícios, conter gastos, como agora se pretende dentro da política de "racionalização" que está sendo esboçada, significará na melhor das hipóteses manter essa ociosidade – ou, mesmo ampliá-la, a curto e médio prazo, com reflexos sobre o nível de emprego.
O novo governo está disposto a ousar, isto é, a tentar romper o impasse, movido pela necessidade de enfrentar os problemas da inflação e do déficit. Pelo que se pode deduzir – a partir das informações oficiais e das pequenas indiscrições –, acredita-se na possibilidade de êxito, a partir de uma "reviravolta" nas diretrizes dos últimos anos, e aproveitando-se os trunfos criados. Basicamente, a nova estratégia procuraria a aplicação maciça de recursos na agricultura, no interior, ampliando a procura por alimentos – e por bens industriais de consumo de massa. O objetivo seria um "crescimento de baixo para cima", através do aumento da renda das faixas marginalizadas da população, e não "de cima para baixo", como ocorreu com o modelo concentrador da renda dos últimos anos. Como reverso da medalha, a estratégia implicaria um certo "congelamento" no crescimento dos demais setores econômicos, ligados aos centros urbanos.
A classe empresarial e a opinião pública em geral vão precisar de uma "auto-lavagem cerebral" para avaliar corretamente todas as transformações que tal estratégia introduzirá na vida nacional. O Brasil dos últimos anos ganhou uma visão absolutamente urbana de seus problemas e necessidades: acredita-se que "o povo vai bem, quando o trabalhador dos grandes centros vai bem", ou que "a economia vai mal, quando a produção industrial dos grandes centros vai mal". As populações de baixa renda – sem representação política, diluídas pelo Brasil afora – têm sido, apenas, um "personagem" incomodo nos diagnósticos de caráter acadêmico.
Com esse comportamento coletivo, não vai ser fácil para o empresariado (urbano) ou a opinião pública (urbana) avaliar corretamente os problemas e êxitos trazidos pela nova estratégia. “Desaquecimentos" setoriais poderão ser interpretados como uma recessão, gerando intranqüilidade política e social.