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  No fio da navalha

Revista da Fenae , julho de 1998


Tradicionalmente, a Copa do Mundo provoca uma explosão nas vendas de aparelhos de TV, vídeos e correlatos. Não foi assim este ano. Em maio, o faturamento do setor caiu 25% na comparação com igual mês de 1997 - que já havia recuado sobre 1996. O resultado, desalentador para a indústria e comécio, é um bom termômetro da persistência dos problemas da economia brasileira e das perspectivas para o segundo semestre. De pouco vale, assim, ficar de olhos pregados nos resultados da pesquisas de intenção de votos e suas aparentes mutações. Os próximos meses continuaram a reservar uma batelada de problemas para o Planalto.

Ou, mais ainda: exigirão "reviravoltas" milagrosas para evitar o naufrágio do real, com sua maxidesvalorização e a crise total no mercado financeiro e economia do País. Eis, em rápidas pinceladas, o cenário que tira o sono dos aliados do governo:

Rombo - a maior preocupação dos investidores estrangeiros não é a ascensão de Luís Inácio Lula da Silva nas pesquisas. Segundo dirigentes da Câmara de Comércio Americana, em seminário realizado em São Paulo, a maior preocupação é, exatamente, o rombo do setor público, que pode ultrapassar 7% do PIB este ano.

Dólares - o alargamento do rombo está sendo provocado pelos juros altos (tentativa de atrair dólares) e o crescimento da dívida da União, e estados e municípios. Estes gastos com juros estão na faixa de R$ 5 bilhões, por mês.

Dólares, ainda - para atrair "aplicadores" externos, além das taxas de juros elevadas, o governo brasileiro permitiu curtíssimo prazo nas aplicações. Resultado: somente nestes próximos meses, isto é, até as eleições, vencem de US$ 100 a US$ 125 bilhões (com B mesmo) de empréstimos e compromissos. É necessário pagá-los ou renová-los (rolagem). Uma tarefa impossível, quando se perde a confiança dos investidores por causa das próprias condições de deterioração da economia, "rombo" nas vendas, baixos lucros ou prejuízos para as empresas, e conseqüente adiantamento da entrada de dólares, etc.

Fuga de dólares - em maio, o país já perdeu US$ 2 bilhões de suas reservas. Na primeira quinzena de junho, outro US$ 1,6 bilhão. E em um único dia da segunda quinzena saíram US$ 375 milhões pelo mercado oficial.

Manobras - os credores "apertam" o cerco, as cotações do dólar e os juros nos mercados futuros sobem, as bolsas caem. O governo lança mão de manobras para adiar a crise. Mas as "ondas" de desconfiança são cada vez mais freqüentes e fortes.

É esse quadro que explica a obsessão do governo em privatizar o sistema Telebrás a qualquer preço, o mais rápido possível. O ingresso de dólares e reais nos cofres oficiais teria o dom de reduzir temporariamente, ao menos até as eleições, o rombo do setor público. Mesmo essa obsessão do governo, no entanto, se assemelha à esperança inútil de quem está se afogando. Afinal de contas, o preço baixo fixado, de apenas R$ 13,3 bilhões, seria um reforço de caixa ridículo, diante do tamanho do rombo. Além do mais, os "compradores" pagariam somente 40% à vista, isto é, menos R$ 5,3 bilhões, suficientes para liquidar apenas um mês de desembolso com juros...

Além do mais, essa tentativa de adiar a queda do real e crise subsequente passou a enfrentar dificuldades inesperadas. Até aqui, as operações de privatização, por mais distorções que apresentassem, não haviam despertado maior atenção na sociedade (as tentativas de reação se limitaram, sempre, a segmentos altamente politizados). Agora, as vendas das teles ganham imensa cobertura nos meios de comunicação, criando dúvidas e atrasos em sua concretização. Por que a reviravolta? Primeiro ponto: o aparente "escorregão" do candidato Luís Inácio Lula da Silva, ao insinuar a possibilidade de formação de "caixa dois" para a reeleição do presidente FHC. Com o incidente, a questão da privatização transferiu-se para o terreno político - e passou por isso a ganhar até manchetes nos jornais e TVs. Segundo motivo: o anúncio de que a Embratel poderia ser comprada por usuários, como a Rede Globo, colocou os grupos jornalísticos concorrentes em pé de guerra. Surgiram brechas na aliança dos meios de comunicação com o governo FHC, responsável pela total manipulação do governo e da sua política neoliberal, nos últimos anos. A cortina de fumaça em torno dos problemas do país começou a esvair-se. Uma guinada que pode ter peso decisivo na opinião pública, iludida nos últimos quatro anos, nos meses que vêm por aí.



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