[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Armadilha para os agricultores

Jornal Diário da Manhã , sábado 13 de agosto de 1983


O custo dos alimetos, segundo os dados oficiais, subiu mais de 170% nos últimos doze meses, e quase 20% apenas no mês de julho. Além de disseminar a fome no País, essa carestia tem outros efeitos sobre a economia: ela, de um lado, agrava a recessão, pois mesmo cortando o consumo de alimentos, as famílias continuam a gastar muito mais dinheiro para comprá-los restando uma parcela menor de sua renda para o consumo de outros bens. Tão grave quanto este efeito, há outro: a disparada dos preços dos produtos agrícolas puxa os índices de inflação e, por conseqüência, puxa os índices de correção monetária para cima, com nova realimentação da inflação.

Apesar de todas essas evidências, o ministro da Agricultura, Amaury Stabile, vem insistindo em que os novos preços mínimos, para o plantio da safra 1983/84, sejam majorados em até 160%. A proposta é absolutamente irracional: diz o ministro que os atuais preços mínimos não podem ficar muito abaixo dos atuais preços de mercado, porque isso “desestimularia o produtor”. Ora, os preços mínimos, segundo a legislação que os criou, visam a assegurar uma remuneração justa ao produtor: eles devem cobrir os custos de produção, e deixar determinada margem de lucro para o agricultor. Logicamente, é este o critério que deveria prevalecer na fixação dos níveis para 1983/84 – mas os técnicos do Ministério da Agricultura fizeram “várias contas de chegar” para forçar aquele reajuste de até 160%.

A proposta do ministro da Agricultura não interessa nem mesmo aos agricultores, e pode até representar uma “armadilha” para eles. Preços demasiado elevados, injustificadamente elevados, podem resultar em grandes safras – invendáveis. Os alimentos ficarão fora do alcance do poder aquisitivo da massa consumidora, principalmente diante do arrocho salarial, agravando o subconsumo - e os excedentes. Aí, como acoteceu em 1982, os agricultores ficarão sem compradores, forçados a entregar suas safras, a preços ridículos, aos intermediários, já que em algumas ocasiões (como no ano passado) as compras do governo, dentro da política de preços mínimos, não se fazem no ritmo necessário. Esse risco certamente existirá em 1984, e em larga escala, pois a contenção do déficit público e a rigorosa política monetária, impostas pelo Fundo Monetário Internacional, poderão levar o governo a fazer “corpo mole” na hora da compra de safras, para evitar “estouros” na política de crédito.

Já no momento, a insistência do ministro Stabile em fixar preços mínimos injustamente elevados está reforçando a carestia e a especulação pois a perspectiva dos reajustes está impedindo a queda dos preços dos produtos da safra deste ano. Há quem, ingenuamente, acredite que os atuais preços elevados dos alimentos beneficiem o produtor, mesmo que às custas de todos os males já vistos. Ledo engano. O produtor já vendeu suas safras há muito tempo. Quem está lucrando, hoje, é a rede de intermediação. Às custas do consumidor. E às custas do produtor.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil