Jornal Folha de S.Paulo , sábado 21 de novembro de 1981
Em melo ao foguetório que já começou a espocar desde que o ministro Delfim Neto anunciou a reativação da economia, cabe perguntar as razões que o governo descobriu, de uma hora para outra, para julgar que o País pode "voltar a crescer". Por ora, sem pretender analisar a questão de uma forma mais ampla (discutindo os prós e os contras a essa decisão) não se pode deixar de chamar a atenção para as transformações rapidíssimas ocorridas na área mais crítica da economia, a saber, os gastos com o petróleo. Malhada como "bode expiatório" quando a dívida externa brasileira fugiu ao controle – por causa de um "modelo de crescimento” errado, e não apenas por causa do petróleo –, a Petrobrás tem muito a ver, neste momento, com a retomada do crescimento econômico: sua contribuição à melhora da balança comercial brasileira é decisiva, embora o ministro Delfim Neto não tenha, até agora, se lembrado de dizê-lo, ao País.
Antes de mais nada, deve-se apontar que a Petrobrás está exportando, este ano, nada mais nada menos que 1,2 bilhão de dólares em derivados do petróleo, vale dizer, praticamente 5% das exportações totais brasileiras – sozinha. De onde vêm esses produtos? A Petrobrás, como se sabe, montara um imenso parque de refinarias, projetado nos tempos do "petróleo barato", e que ficara ocioso, em parte, diante das restrições do consumo surgidas sobretudo a partir de 1979. Este ano, a empresa fez contratos para trazer petróleo estrangeiro para o País processá-lo em suas refinarias, e exportar os derivados resultantes (o que significa que grande parte do "avanço" das exportações brasileiras em 81 é explicado por essas vendas da Petrobrás. O que significa, também, que as cifras relativas aos gastos do País, com petróleo, estão exageradas, pois parte da importação se destina na verdade a reexportação).
Isso, do lado das exportações. Mas os avanços mais extraordinários feitos pela Petrobrás foram na área de aumento de produção – a descoberta de campos petrolíferos, reduzindo as importações. Quando o governo, no final de 1979, lançou seu programa para conter as importações de petróleo, previu-se que o consumo nacional, em 1985, seria equivalente a 1,5 milhão de barris – dos quais somente 500 mil seriam importados. Da outra parcela, de um milhão de barris, a metade seria coberta por substitutivos equivalentes (álcool, carvão, madeira, xisto, energia solar etc.), enquanto os 500 mil barris restantes deveriam corresponder a petróleo nacional.
Nas metas estabelecidas na ocasião, a Petrobrás deveria produzir a média de 220 mil barris em 1981, 250 mil em 1982. Já neste final de ano, a Petrobrás está alcançando a produção diária de 260 mil barris – vale dizer, a média prevista para 1982 será largamente superada: hoje, a empresa dispõe de previsões, baseadas em poços já descobertos e testados, para obter de 350 mil a 360 mil barris por dia no próximo ano, superior, mesmo, à média prevista para 1983, de 335 mil barris. E essas revisões são ainda, bastante cautelosas e devem ser superadas: quem acompanhou o noticiário sobre a evolução das atividades da Petrobrás, este ano, verificou que a bacia de Campos, principalmente, tem sido uma surpresa agradabilíssima para o País, sucedendo-se os novos campos e novos poços descobertos, na área. Mais ainda: cada vez que um deles entrou em operação, a produção alcançada chegou aos 6.000 ou 8.000 barris diários, por poço, ou seja, o dobro dos resultados que os técnicos esperavam.
Apenas para avaliar o significado dessa produção, deve-se lembrar que os poços de petróleo em terra firme, isto é, fora da plataforma continental, raramente chegavam a produzir 100 barris por dia, no Brasil – o que significa que cada poço, em Campos, está produzindo tanto quanto 60 poços "antigos". E esse desempenho não se limita a Campos: as novas descobertas da Petrobrás, no Nordeste ou no Espírito Santo, têm resultado em poços com produção inferior àqueles 6.000 a 8.000 barris, mas sempre na casa dos 1.000 a 3.000 barris, Isto é, dez a trinta vezes o nível dos poços "antigos". Para coroar tudo Isso, a Petrobrás parece ter conseguido, finalmente, quebrar o tabu do petróleo da Amazônia, localizando um poço produtor no litoral do Pará, ainda em fase de testes.
Ante esse quadro, o governo deve dispor, hoje, de previsões bastante otimistas sobre os gastos com a importação de petróleo, nos próximos anos, aliviando o problema do crescimento da divida externa. Aparentemente, Brasília esconde o seu entusiasmo exatamente para evitar as pressões em favor de uma volta ao "crescimento acelerado", com o País voltando a gastar "por conta" do petróleo que virá a ser produzido um dia. O petróleo nacional cria melhores perspectivas para o controle da dívida externa a médio prazo – mas não reduz o seu peso, no momento.