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  Vale do Rio Doce, ignorância e má-fé

Os novos argumentos apresentados por governo e de-formadores de opinião para justificar a venda da Vale do Rio Doce são uma mistura espantosa de ignorância, amnésia e, principalmente, má-fé.

A estratégia para continuar enganando o Congresso e a opinião pública se baseia em dois pontos principais.

Primeiro: diz-se que a Vale do Rio Doce tem sido péssimo negócio para o governo porque, ao longo dos anos, pagou rendimentos em torno de 1% ao mês, ou “menos que a caderneta de poupança”.

Portanto, conclui a propaganda do governo, é mais vantajoso o governo vender a Vale e aplicar o dinheiro em negócios mais rentáveis. É tudo mentira.

Segundo: o governo agora confessa que realmente a Vale tem jazidas fabulosas (não apenas de ouro e cobre) em Carajás que nem sequer foram medidas corretamente, isto é, das quais nem sequer se sabe o valor (de centenas de bilhões de dólares).

Mesmo assim, dizem agora os de-formadores, pode-se montar um esquema para vender a Vale imediatamente, sem prejuízos para o governo.

Como assim? O Tesouro e outros acionistas minoritários da Vale receberiam um tipo de título (batizado errada e sem-vergonhamente de “debênture”) que garantiria a participação também nos lucros que a Vale do Rio Doce viesse a ter no futuro com a exploração dessas jazidas. Parece uma saída inteligente. É outra manobra despudorada.

Para entender a falsidade desses argumentos, é preciso analisar tintim por tintim essas operações todas.

Lucros e lucros

Vamos fazer de conta que dois amigos, Pedro e Luís, criem uma empresa para vender artigos importados, com um capital de R$ 100 mil: cada um deles terá 50 mil ações, no valor de R$ 1 cada uma, representando 50% do capital para cada um.

No final do ano, a empresa oferece um lucro fantástico de R$ 200 mil, ou o dobro do capital. O que os dois sócios – ou acionistas – fazem? Pegam esses R$ 200 mil de lucro e torram? Caem na farra?

Claro que não. Usam os lucros também para ampliar a empresa, investir. Em qualquer empresa, os sócios dividem os lucros assim:

Dividendos - do lucro de R$ 200 mil, Pedro e Luís retiram 10%, ou R$ 20 mil, para seu próprio bolso. Esses lucros que são distribuídos é que recebem o nome de dividendos. Os dividendos, portanto, são só uma pequena parte dos lucros anuais de uma empresa.

Isto é: quando se diz que a Vale pagou dividendos ridículos ao governo, e por isso ela é um mau negócio, os de-formadores de opinião estão mentindo. Fingindo que não sabem.

Reservas - depois de retirar os dividendos, o que Pedro e Luís fazem com os R$ 180 mil restantes do lucro de R$ 200 mil? Esse dinheiro vira “reserva” da empresa. Depois, essas “reservas” são usadas para aumentar o capital da empresa.

Como isso é feito? Os R$ 180 mil de lucro que viraram “reservas” se transformam em 180 mil ações, cabendo metade, ou 90 mil, a cada sócio, que passa a ter 140 mil ações cada um.

Filhotes - essas ações distribuídas “gratuitamente” aos sócios, isto é, tiradas dos lucros que viraram reservas, são chamados de “filhotes” (bonificações, na linguagem técnica).

Isto é: ao longo dos anos, o Tesouro recebeu bilhões e bilhões de ações “filhotes” resultantes dos lucros da Vale. É mentira, e os de-formadores sabem disso, que a Vale só tenha rendido “dividendos” ridículos.

Investimentos - o que Luís e Pedro fazem com o capital aumentado pelos lucros de sua empresa? Ampliam os negócios, abrem novas lojas, conquistam fatias do mercado. E, óbvio, a empresa vale cada vez mais. Rende cada vez mais lucros para seus donos, além de ter um patrimônio cada vez maior. Como a Vale tem rendido ao Tesouro.

Resultado: as ações da empresa também valerão cada vez mais, inclusive nas Bolsas. É também o caso da Vale.

O cidadão comum, ou mesmo deputados e senadores, não tem a obrigação de conhecer esses mecanismos. Mas ministros, ex-ministros e formadores de opinião, especialmente com tradição no mercado financeiro, conhecem-nos muito bem. É espantoso que finjam ignorância ou amnésia para defender a venda da Vale. Agem de má-fé.

P.S.: Por limitações de espaço, fica para a próxima semana o desmascaramento da proposta de emissão de “debêntures” citada na abertura deste artigo.


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