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  O II PND a realidade - V

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 25 de setembro de 1974


A arriscada simpatia pela estratégia dos países árabes

O discurso do presidente norte-americano acenando até com a “guerra total” caso os preços do petróleo árabe não sofram redução, atribui à alta dos combustíveis todos os males da economia mundial. Para muitos observadores, a posição norte-americana, agora oficialmente revelada, é a peça que faltava para que se entendesse o “quebra-cabeças” representado pelo alarrmismo que a imprensa mundial vem criando em torno de uma possível “depressão” contestada por técnicos como os economistas do Citybank (V. abaixo). Na guerra, lembram os observadores, o que importa é a versão, além dos aliados - e, na conjuntura atual, pode-se ver de que lado estão as simpatias dos veículos de comunicação, responsáveis pela formação da opinião pública.

O governo brasileiro, contudo, dificilmente endossaria os pontos de vista dos EUA - ao menos, ao dar-se crédito à análise que o II Plano Nacional de Desenvolvimento faz da conjuntura mundial. Longe de colocar o petróleo árabe no banco dos réus, o PND demonstra, mesmo, simpatia pela posição dos países produtores de óleo - não fora o Brasil, ainda, um país eminentemente exportador de matérias-primas, inclusive minerais.

TENSÕES ECONÔMICAS
Segundo o PND, no capítulo “Sentido da Tarefa Nacional”, a prosperidade mundial dos últimos anos era intensa, mas, “no fundo do horizonte, entretanto, já se vinham acumulando as tensões econômicas”. Sob que forma? “Da crise monetária internacional”, diante da superação do sistema implantado em Bretton Woods; “dos problemas de balanço de pagamentos dos EUA”, com seus déficits “exportadores” de inflação; das negociações multilaterais de comércio internacional, que impediram acordos específicos dos países subdesenvolvidos. Nesse quadro, diz o PND, “os países subdesenvolvidos acumularam desapontamentos, sucessivamente”, para explicitar: “Assim ocorreu em relação ao problema da ajuda financeira”, com os países desenvolvidos dedicando uma parcela cada vez menor de seu PNB e investimentos nas regiões em desenvolvimento; “da transferência de tecnologia”, com as multinacionais concentrando suas pesquisas nos países sede, deixando de contribuir para avanços, nessa área, nos países que hospedam sus subsidiárias; “da liberalização do comércio”, com pesados “impostos” dificultando até a venda de produtos primários; “dos acordos de produtos de base”, como o café ou cobre, que continuam a subir e descer na “montanha-russa” das cotações, de acordo com os desígnios dos países importadores e suas “tradings” e multinacionais.

Acumulado esse rosário de problemas, reconhece o PND, “sobreveio - ainda - a crise do petróleo”.

Mas a crise do petróleo, na visão do PND, não é para questão de preço: “a crise de energia, diz logo a seguir a análise, já se vinha pronunciando havia pelo menos uma década, só as vistas descansadas (sic) das nações industrializadas... A disponibilidade de petróleo barato e as políticas internas de preços irrealistas... levaram ao subinvestimento no setor e à despreocupação com a pesquisa de novas fontes de energia. De repente, o mundo industrializado acordou - diz textualmente o PND - não apenas para a realidade dos preços quadruplicados do petróleo, e da dependência em relação a fontes externas de energia, mas também para o fato de que o petróleo, que responde por mais de 45% da energia produzida nos Estados Unidos, 63% na Europa e 75% no Japão, pode ter suas reservas mundiais substancialmente reduzidas em 10 a 15 anos”.

PONTOS DE IDENTIFICAÇÃO
O risco de esgotamento das reservas mundiais de petróleo é enfatizado pela análise, que afirma: “É nesse sentido que a crise de energia afeta os fundamentos da sociedade industrial moderna. O novo estágio é qualitativamente, e não apenas quantitativamente diferente do que foi o mundo econômico das últimas décadas”.

A análise revela, a seguir, pontos de identificação com a atitude dos países árabes (e demais exportadores de petróleo): “Importa compreender o que existe de válido na motivação dos países exportadores de petróleo. Proprietários de um insumo (matéria-prima) essencial não renovável, cujas reservas podem exaurir-se em duas décadas, recorreram eles a forte elevação de preço como forma de absorver uma porção bem maior da riqueza mundial gerada pelo petróleo” - o que, diz o PND, numa aprovação indireta, foi feito “presumivelmente para assegurar uma melhor oportunidade de realizar seu próprio desenvolvimento”, através da obtenção de mais divisas.

Sem deixar de se preocupar com os problemas trazidos pela alta dos preços do petróleo (analisadas no mesmo capítulo), o PND demonstra, porém, compreensão para com essa política de elevação de preços. Como conciliar essa linha com a tese defendida pelo presidente Ford, de que os países detentores de recursos básicos devem compartilhá-los, magnanimamente, com as demais nações? No próprio caso brasileiro, como pode a Petrobrás deixar de aceitar a colaboração das empresas multinacionais na exploração do petróleo nacional, para acelerar sua exploração e permitir que os países industrializados disponham rapidamente de maiores quantidades de petróleo? Eis um problema que o PND não previu.



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